Roberto Negro Trio: “Luna di Wuxi / À l’Opéra” (Tricollective)

Rui Eduardo Paes

Figura em aclamada ascensão na cena francesa, Roberto Negro é um pianista – e, em igual medida, um compositor – excêntrico, excessivo e surpreendente. Entrar na sua música em trio com o baixista Jerôme Arrighi e o baterista Adrien Chennebault é como visitar um mundo de fantasia em que as leis da Física são sempre desafiadas. Fica por demais evidente o seu gosto pela melodia, mas esta tem volteios e deflagrações que são tão sedutores quanto bizarros, ganhando ainda mais impacto quando as linhas melódicas são esticadas e desconstruídas por via da improvisação. Como não podia deixar de ser, a pop, o rock e a folk são referências neste tipo de abordagem, tal como acontece em muitos trios de piano jazz da actualidade, mas não para aligeirar a música – antes para continuamente a refrescar.

Neste duplo álbum, cada CD tendo o seu título independente, ouvimo-lo no topo das suas capacidades. “Luna di Wuxi” abre com uma versão de «Grace», tema do vocalista e guitarrista Jeff Buckley, e ficamos desde logo de queixo caído. O que faz com o mesmo ultrapassa tudo o que poderíamos esperar, complexificando o que parecia simples e em simultâneo dando-lhe um ainda maior impacto. E o que se segue é completamente o inverso: texturas abstractas em piano preparado e alguma electrónica com, por incrível que pareça, o mesmo nível de lirismo e poesia. No segundo CD, “À l’Opéra”, o trio transforma-se em quarteto com a adição do saxofonista Christophe Monniot, que também assina duas das peças. É como uma dança pagã à volta da fogueira, com Monniot a lembrar o Garbarek do início. Intriga, inventividade, um prazer quase infantil de tocar e uma boa dose de loucura conduzem a música a desfechos que roçam o sublime. Uma boa notícia: vamos ter Negro entre nós, nos Encontros de Coimbra, a 28 de Maio, com o novo grupo What About Sam.