A meio de mais um ano bom

Balanço provisório

A meio de mais um ano bom

Astral Spirits

texto Rui Eduardo Paes

Os anos de 2013 e 2014 foram de boas colheitas discográficas no que respeita à criatividade e à qualidade dos músicos nacionais, mas 2015 está a seguir o mesmo caminho. Aqui em análise 10 discos de edição recente que nos deixaram boas impressões. Uns mais e outros menos, para tornar as coisas mais interessantes (foto acima: "Zíngaro" / Mitzlaff / Viegas / Rosso 4tet por Hélio Gomes)…

Vai o ano de 2015 a meio e já dá para verificar que, mais uma vez, temos uma boa fornada de edições de jazz e de música improvisada com músicos nacionais. Com duas particularidades que se vão repetindo: alguns dos lançamentos discográficos realizados partiram da iniciativa de etiquetas de outros países e são vários os casos que combinam instrumentistas portugueses com estrangeiros. A qualidade é bastante alta, e em algumas circunstâncias atingem-se mesmo níveis de brilhantismo. Tudo isto resulta num sinal de vitalidade da nossa cena.

A Astral Spirits é uma editora norte-americana especializada em suportes que se consideravam mortos, mas estão a voltar: o vinil e a cassete. Pois saiu em fita, precisamente, o terceiro título em que surge, sem “special guests”, um dos grupos portugueses mais internacionais, o Red Trio de Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini. “Live in Munich” tem, no entanto, uma nuance que permite a todos aqueles que já não dispõem de um leitor de cassetes o acesso à música – no interior há um número de código que permite descarregar a mesma gravação ao vivo da Internet.

Trata-se de mais um belo opus do trio de Lisboa, mas não traz especiais surpresas nem acrescenta nada de substancial a “Rebento” e a “Red Trio”. As coordenadas são as que definiram o projecto: vão do quase silêncio e de um minimalismo lírico-abstracto a situações de enorme intensidade e expressionismo, ora com um cunho jazzístico pronunciado, ora evidenciando influências eruditas e de outras músicas. Ou seja, agrada sobremaneira, mas não surpreende.

Surpreendente, ainda que não da forma mais positiva, é o outro registo, também em concerto, do Red Trio saído este ano, com selo da polaca Bocian Records. Depois de John Butcher, Nate Wooley e Mattias Stahl, os convidados são agora Gerard Lebik e Piotr Damasiewicz. A música de “Mineral” é óptima, atenção, mas tem um problema: este é um Red Trio espartilhado no free jazz, e isso porque, sendo essa a linguagem dos dois sopradores da Polónia, Pinheiro, Faustino e Ferrandini ficaram enredados num tipo de discurso que só em parte é o seu. Os três Red são mais, muito mais, do que aquilo que ouvimos neste LP partilhado com músicos que os fecharam numa fórmula, em vez de os apoiarem ou incentivarem na típica abordagem de abertura que é a sua.

LP? Sim, “Mineral” é um “long playing”, tal como o mencionado “Rebento”, mas deve ser ouvido em 45 rpm, como se fosse um single. Aliás, a audição total do álbum não chega aos 30 minutos. Foi já em CD que surgiram as outras edições em que os irrequietos membros do Red Trio se multiplicaram nestes últimos tempos. A primeira a referir é a mais preciosa: Rodrigo Pinheiro participa na estreia dos Earnear na canadiana Tour de Bras, juntamente com João Camões e Miguel Mira, este igualmente bem conhecido além-fronteiras devido à sua inclusão no Rodrigo Amado Motion Trio. 

Vidro a partir-se

Rodrigo Pinheiro por Carlos Paes 

Gabriel Ferrandini por Hélio Gomes

Muito graças à instrumentação envolvida – viola e violoncelo para além do piano de Pinheiro –, o formato desta muitíssimo aliciante proposta é o da música de câmara em versão improvisada, e se uma das técnicas utilizadas, o contraponto, provém da herança em causa, têm outra proveniência os restantes elementos. Designadamente, a polirritmia, vinda de África por via do jazz, e um “soundscaping” referenciado na electroacústica experimental e no ambientalismo.

A atitude irreverente, extravagante até, do trio abana com os modelos camerístico e da própria música improvisada, pelo que o minuto seguinte pode trazer algo de que não se está à espera. Camões e Mira fazem maravilhas neste “Earnear”, mas o que Pinheiro nos oferece aproxima-se do sublime. Quando a sua mão chega às últimas notas do lado direito do teclado, é como se ouvíssemos vidro a partir-se.

Encontramos os outros dois elementos do Red Trio, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini, mais o Luís Lopes do luso-texano Humanization Quartet, nos Lisbon Connection do americano Elliott Levin. Se o disco anteriormente analisado se caracteriza pela subtileza e por uma quase permanente suavidade, este alinha totalmente pela chamada “estética do grito”. Antigo aluno de Cecil Taylor e Odean Pope e ex-colaborador do primeiro, o líder saxofonista, flautista e poeta / “diseur” situa-se na linhagem de Coltrane e Ayler, mas a secção rítmica portuguesa deste CD homónimo publicado pela conimbricense JACC Records mescla o free jazz com free rock ou leva-o para os domínios da improvisação integral e do noise.

Levin deixou que os seus interlocutores definissem consigo os rumos tomados pela música, o que não aconteceu no concerto de apresentação deste disco em Coimbra no passado mês de Maio. Foi de certa maneira o inverso que aconteceu com “Exaiphnes”, outro registo recente de Miguel Mira. Este violoncelista e demais intervenientes de Portugal, Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Abdul Moimême (Rui Horta Santos de seu verdadeiro nome), permitiram ao grego Thanos Chrysakis que imprimisse a marca da sua cultura numa abordagem musical que habitualmente procura a universalidade, ou pelo menos uma certa distância relativamente a regionalismos: a da corrente reducionista e “near silence”.

É esse, de resto, um dos factores que tornam este título da lisboeta Creative Sources tão especial. O outro é a dramatização / encenação que emerge da organização sonora, algo de pouco usual nesta área da música e que ganha ainda maior significado por ter sido de elaboração espontânea e intuitiva. Ainda que esta circunstância a relacione com alguma música erudita contemporânea, aquela que se deixou contaminar pela tradição popular.

Por vezes, também algumas partes de “Day One” (JACC Records) parecem ter sido escritas. O quarteto de Carlos “Zíngaro” e João Pedro Viegas com o alemão Ulrich Mitzlaff e o uruguaio Alvaro Rosso, ambos residentes no nosso país, recorre com frequência a figuras melódicas e rítmicas, bem como a repetições de motivos. A vertente câmara do grupo é mais óbvia do que a dos Earnear, mas já isso não acontece com o lado improvisacional: dados os convencionalismos jazz e clássicos abraçados, o que aqui vem não alinha com o experimentalismo da improvisação que se pretende “não-idiomática”. Ora, fugir à regra é sempre uma mais-valia. 

A escuta dos outros

Hernâni Faustino por Vera Marmelo 

João Pedro Viegas por Hélio Gomes

Acrescenta-se, em “Day One”, outro aspecto: a excelência das performances instrumentais. Se é isso que normalmente se espera do virtuoso “Zíngaro”, o violinista é bem secundado pelo violoncelo de Mitzlaff, o contrabaixo de Rosso e o clarinete baixo de Viegas, músico que cresceu imenso nos últimos anos. É este, aliás, o contribuinte português de um disco da italiana White Noise Generator, com data de 2014 mas qie só agora nos chegou às mãos, em que o ouvimos ao lado de dois dos mais importantes improvisadores de Itália, Nicola Guazzaloca e Marcello Magliocchi. O único verdadeiro senão de “Leggere Strutture”, assim denominado porque foi gravado nesse espaço da cidade de Bolonha, é o som. Dir-se-ia que o trio está a tocar no fundo de um túnel. Ainda assim, é altamente convincente esta música baseada na escuta dos outros e na criação de espaços, de respirações, tão austera nos materiais quanto fantasista nos desenvolvimentos.

E temos novamente Viegas, desta feita em duo com Paulo Chagas, numa nova produção da americana Pan y Rosas, “The Legendary Story of a Slug and a Beetle”. A receita não dista muito da apresentada pelo CCV Wind Trio (os mesmos mais Paulo Curado) em “Old School, New School, No School”: o estabelecimento de diálogos unicamente com instrumentos de palheta. Têmo-la, no entanto, aqui mais concentrada e imediata. Há menos jogo e menos elementos, sem dúvida, mas igualmente um maior aprofundamento de cada situação. O desenho da capa é de Carlos “Zíngaro”, acrescentando valor ao objecto.

Os What About Sam? são, por sua vez, formados por três lisboetas, Luís Vicente, André Rosinha e Vasco Furtado, e dois italianos emigrados, um em França, Roberto Negro, e o outro em Portugal, Federico Pascucci. Esta outra aposta forte da JACC Records, “Happy Meal”, é o álbum mais objectivamente jazzístico deste lote, reunindo temas situáveis na zona de separação (que é também a de conexão) do “mainstream” com a “vanguarda”. As estruturas seguem os padrões estabelecidos e as improvisações obedecem a cifras muito definidas, mas o que o quinteto faz dentro dessas molduras é notável.

Os solos de trompete e saxofone tenor de Vicente e Pascucci são inventivos e vibrantes e o núcleo propulsor fornecido pelo contrabaixo de Rosinha e a bateria de Furtado é sólido. Seria o suficiente para que valesse a pena ouvir, mas o piano de Negro eleva a música uns quantos degraus acima, ora contradizendo o que é exposto, ora desafiando os seus pares para outros desfechos. Sempre como um “joker”, um elemento disruptivo e perturbador. Um pau na engrenagem e o bobo da festa ao mesmo tempo, com a diferença de que, em vez de deitar tudo a perder, realça as virtudes dos seus companheiros.

Claro que a ausência de Roberto Negro – um dos mais intrigantes pianistas em actividade – se faz sentir em “Cru”, da dupla Federico Pascucci / Vasco Furtado, mas este registo auto-editado o ano passado esclarece-nos quanto às invulgares capacidades de ambos estes jovens instrumentistas. Leva-nos, inclusive, a imaginar o que serão daqui por uns anos, quando tiverem mais experiência e souberem mais.

Agora, resta-nos esperar que mais discos relevantes de e com músicos nacionais surjam até ao fim de 2015. Rodrigo Amado anunciou já a edição de “This is Our Language” pela Not Two Records, com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano, e as expectativas são muitas. Para breve sairá, igualmente, a estreia de uma banda que já entusiasmou quem os viu e ouviu no palco, Slow is Possible. Quanto ao que mais vier, cá estaremos à espera, curiosos…

  • Live in Munich

    Live in Munich (Astral Spirits)

    Red Trio

    Rodrigo Pinheiro (piano); Hernâni Faustino (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão)

  • Mineral

    Mineral (Bocian Records)

    Red Trio & Gerard Lebik / Piotr Damasiewicz

    Rodrigo Pinheiro (piano); Hernâni Faustino (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bacteria, percussão) + Gerard Lebik (saxofone tenor); Piotr Damasiewicz (trompete)

  • Earnear

    Earnear (Tour de Bras)

    Earnear

    João Camões (viola); Rodrigo Pinheiro (piano); Miguel Mira (violoncelo)

  • Lisbon Connection

    Lisbon Connection (JACC Records)

    Elliott Levin’s Lisbon Connection

    Elliott Levin (saxofone tenor, flauta, voz); Luís Lopes (guitarra eléctrica); Hernâni  Faustino (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão)

  • Exaiphnes

    Exaiphnes (Creative Sources)

    Chrysakis / Rodrigues / Moimême / Rodrigues / Mira

    Thanos Chrysakis (piano, harpa); Ernesto Rodrigues (viola); Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Miguel Mira (contrabaixo)

  • Day One

    Day One (JACC Records)

    “Zíngaro” / Mitzlaff / Viegas / Rosso 4tet

    Carlos “Zíngaro” (violino); Ulrich Mitzlaff (violoncelo); João Pedro Viegas (clarinete baixo); Alvaro Rosso (contrabaixo) 

  • Leggere Strutture

    Leggere Strutture (White Noise Generator)

    Nicola Guazzaloca / João Pedro Viegas / Marcello Magliocchi

    Nicola Guazzaloca (piano); João Pedro Viegas (clarinete baixo); Marcello Magliocchi (bateria, percussão)

  • The Legendary Story of a Slug and a Beetle

    The Legendary Story of a Slug and a Beetle (Pan y Rosas)

    João Pedro Viegas / Paulo Chagas

    João Pedro Viegas (clarinetes soprano e baixo); Paulo Chagas (flauta, oboé, clarinete sopranino)

  • Happy Meal

    Happy Meal (JACC Records)

    What About Sam?

    Luís Vicente (trompete); Federico Pascucci (saxofone tenor); Roberto Negro (piano); André Rosinha (contrabaixo); Vasco Furtado (bateria)

  • Cru

    Cru (Edição de autor)

    Federico Pascucci / Vasco Furtado

    Federico Pascucci (saxofone tenor); Vasco Furtado (bateria)