Cróniques 2

Albert Cirera / Ulrich Mitzlaff: “Cróniques 2” (Discordian Records)

Discordian Records

Rui Eduardo Paes

A Discordian Records é, simultaneamente, uma editor a e um estúdio de Barcelona devotados a promover a música improvisada e experimental que se vai fazendo na capital da Catalunha. No caso da série “Cróniques”, encetada por Albert Cirera em duo com Olle Vikstrom, o âmbito de acção do projecto tem uma maior amplitude.

Pretende este documentar encontros do catalão agora residente em Lisboa com músicos que nesta cidade vai encontrando. Assim foi, em “Cróniques 1”, com o referido saxofonista barítono sueco e assim é, neste segundo tomo, com o alemão Ulrich Mitzlaff, também ele vivendo em Portugal. Outros se seguirão, incluindo improvisadores portugueses…

“Cróniques 2” inicia-se de forma áspera, com multifónicos de saxofone tenor e violoncelo a enovelarem-se. Depressa, no entanto, cada interveniente ganha autonomia, num diálogo que prefere o conflito à busca de consensos. Fica de imediato claro que os propósitos desta música são problematizadores, exigindo uma escuta activa e totalmente empenhada. As técnicas são, muitas vezes, extensivas e os vocabulários inconformistas relativamente ao que se espera dos instrumentos envolvidos, mormente nos domínios do jazz e da música clássica – aqueles que lhes determinaram os papéis.

Ambas as linguagens acabam sendo, porém, as constantes referências do álbum: se em muitas ocasiões são contestadas, noutras assistimos a uma recuperação de alguns dos seus aspectos, mesmo que para lhes dar outro contexto ou outra razão de ser. É assim, pois, que tanto podemos ouvir algo de próximo do free jazz como situações identificáveis com o mais despojado experimentalismo sonoro.  Não fosse a organicidade acústica dos elementos conjugados e julgaríamos que algumas passagens são electrónicas.

O final deixa-nos desarmados, para mais tendo presente como esta viagem começou: parece mergulhar nos mais longínquos fundamentos da própria música. O violoncelo age como uma viola da gamba, com directas alusões à música antiga, e o saxofone como que redescobre a dimensão lírica que teve o seu apogeu no romantismo.

Até aí chegar os resultados vão crescendo, a pouco e pouco (os temas são, regra geral, de curta duração), ganhando uma dimensão gigantesca e comprovando que Cirera e Mitzlaff são dois dos mais importantes nomes da actual cena lisboeta. Dois virtuosos com uma criatividade sem limites, sempre nos surpreendendo com cada coelho tirado da cartola. E isto sem que alguma vez sejam demonstrativos ou programáticos. Saber que isto  foi integralmente improvisado é o que ainda mais nos espanta.

  • Cróniques 2

    Cróniques 2 (Discordian Records)

    Albert Cirera / Ulrich Mitzlaff

    Albert Cirera (saxofones tenor e soprano); Ulrich Mitzlaff (violoncelo)