Marcio Mattos: “SOL(os)” (Emanem)

Rui Eduardo Paes

Alguns dos mais importantes músicos brasileiros da música improvisada e do jazz criativo vivem na diáspora – é o caso, por exemplo, de Ivo Perelman, estabelecido em Nova Iorque, ou de Yedo Gibson, que fixou residência na Holanda. Também o de Marcio Mattos, radicado em Londres desde a década de 1970 e parte fundamental das cenas britânica e europeia da livre-improvisação. Ao longo do seu trajecto como violoncelista e contrabaixista tocou com as maiores figuras destas áreas, como John Stevens, Derek Bailey, Keith Tippett, Evan Parker, Eddie Prévost, Elton Dean, Tony Oxley, John Surman e muitos outros.

Nunca o também reconhecido ceramista tinha gravado um álbum a solo. Ei-lo finalmente, colocando a nu todos os motivos que o levaram a ocupar a primeira linha do tipo de música que pratica. Em “SOL(os)” (a referência ao astro-rei neste jogo de palavras em Português é confirmada pelos títulos das peças incluídas) encontramos três pequenas improvisações em contrabaixo e seis em violoncelo, três delas com utilização de electrónica e a maior parte com preparações várias, todas elas gravadas entre os anos 1990 e a primeira metade dos 2000. A última faixa é a mais recente, de 2010, e a mais longa, nela voltando ao mais grave instrumento da família do violino, a única em que ouvimos este com processamento. O conjunto é uma pérola da “improv” solística para cordas, maravilhando-nos não só pelo domínio de múltiplas técnicas extensivas, para além das convencionais nos territórios do jazz e da música erudita, mas também pela desmesurada imaginação tímbrica deste natural do Rio de Janeiro. A última das raras vezes que o ouvimos em Portugal foi em quarteto com Simon H. Fell, Carlos “Zíngaro” e Mark Sanders…