Memoria Uno: “Crisis” (Discordian Records)

Rui Eduardo Paes

Não, Memoria Uno não é o equivalente em Barcelona à lisboeta VGO (Variable Geometry Orchestra), mas há algumas semelhanças com este projecto coordenado por Ernesto Rodrigues. Começam elas pelo desejo de reunir o maior número possível de improvisadores de uma cidade. A maior parte dos 39 músicos aqui reunidos (ou 41 se acrescentarmos os dois condutores, Iván González e Albert Cirera) é-nos desconhecida. Excepções são Cirera, que vive actualmente em Portugal e já faz parte da cena portuguesa, o brasileiro Luiz Rocha, que ouvimos este ano no MIA e nas “improv sessions” do Desterro, ou o inglês Tom Chant, colaborador assíduo de Eddie Prévost.

A Memoria Uno coloca em prática os princípios de “conduction” introduzidos por Lawrence “Butch” Morris, e isso pressente-se na comparação com a VGO: esta é muito menos dirigida. Das três improvisações conduzidas que ouvimos em “Crisis”, álbum gravado ao vivo no Ateneu Barcelonès, uma tem mesmo dois maestros, com Cirera a juntar-se a González, o mentor da orquestra. Quando se tem um naipe de 14 cordas de arco, 19 sopros (só flautas são três), duas baterias e quatro contrabaixos (o piano é o único instrumento solitário), das duas uma: ou se trabalha o caos, confiando na escuta, ou estrutura-se, compõe-se, no momento. Sem descurar a energia própria da espontaneidade, a opção aqui vai claramente para a segunda alternativa. Não surpreende, de resto, que o resultado soe mais jazzístico do que qualquer coisa que a “big band” de Lisboa faça...