O regresso da Xanadu

Master Edition Series

O regresso da Xanadu

Xanadu Master Edition Series - Elemental Music

texto Rui Eduardo Paes

Está a ser reeditado o catálogo da editora que nas décadas de 1970 e 80 deu uma segunda força ao hard bop e mesmo ao bop original. Oportunidade única para voltar a ouvir preciosidades gravadas por grandes figuras como Jimmy Heath e Al Cohn ou para se fazer justiça a nomes esquecidos como Sam Most…

Em boa hora a Elemental Music de Zev Feldman pegou no espólio da Xanadu para o reeditar em CD, assim dando uma segunda vida a esta importante discografia em vinil que, na sua maior parte, estava esgotada. Hoje desaparecida, a editora conduzida por Don Schlitten foi de enorme importância para o desenvolvimento do hard bop e de uma nova vaga de força do bebop nas décadas de 1970 e 80 – antes ainda de se iniciar o período revivalista desta tendência, com músicos jovens a imitarem os mestres –, divulgando o trabalho de valores em estreia e proporcionando um regresso à ribalta de uma série de consagrados. Numa primeira investida, foram 25 os títulos recuperados, todos eles escolhidos a dedo entre os mais de 100 do catálogo. Estes aqui mencionados são seis dos mais importantes.

Na altura, o aumento da apreciação do hard bop e, por arrasto, do bebop decorreu do interesse proporcionado pelas músicas que tinham o “groove” como característica comum, designadamente o jazz de fusão, o funk, a soul e o disco. Passados 40 anos, são precisamente esses os motivos, também, que movem os apreciadores do hip-hop e da club music a descobrir as raízes jazzísticas dessas práticas musicais, à força de tantas vezes serem “sampladas”. Ou seja, a Xanadu Master Edition Series tem hoje o mesmo contexto que justificou no passado a formação da Xanadu Records. Temos assim o privilégio de reescutar – ou escutar pela primeira vez – algumas pérolas de gigantes como Al Cohn ou Jimmy Heath e de descobrir figuras que a história injustamente esqueceu, caso de Sam Most. 

Porta de entrada

Percy Heath e Jimmy Heath 

“Kwanza (The First)” tem a relevância de ser o primeiro registo que reuniu os Heath Brothers, antes mesmo de a formação com este nome surgir como algo de especial. Os irmãos Albert “Tootie”, Jimmy e Percy Heath tocam juntos neste álbum de 1974 que é igualmente o debutante em nome próprio de Albert, com a adição ainda de Curtis Fuller, Kenny Barron e Ted Dunbar. Desta série, é o que mais se aproxima da sonoridade eléctrica da época, com Barron a dar particular atenção ao Fender Rhodes e Dunbar utilizando a guitarra de formas que não eram propriamente usuais nesta área.

Nem por essa piscadela de olho ao jazz-funk-rock a música faz concessões. Já há muito que o hard bop se caracterizava pela inclusão de rítmicas latinas, pan-africanistas e dançantes e a escrita de Albert Heath sempre foi imediatista e funcional, nela estando ausente qualquer pretensão intelectual. Jimmy Heath é igual a si próprio (o que quer dizer que é tão swingante quanto em outras situações mais formais) naquilo que faz com os saxofones tenor e soprano e com a flauta, com a vantagem de haver poucas mais gravações em que se detenha neste último instrumento. Pelo seu lado, Percy Heath intervém com o mesmo estilo sóbrio e assertivo que tinha com o Modern Jazz Quartet. “Kwanza” é, pois, uma boa porta de entrada no universo Xanadu, mas há ainda melhor nesta fornada para ouvir…

Por exemplo, há essa obra-prima que dá pelo título de “Picture of Heath”, lançado em 1975 por um Jimmy Heath já na faixa etária dos 50 anos na companhia de Barry Harris, Sam Jones e Billy Higgins. O formato é acústico e “bopiano”, carregando com todo o peso da tradição estabelecida por Charlie Parker, John Coltrane, Thelonious Monk e Miles Davis, mas o disco não podia ter mais alma e expressão. Heath estava imparável nesta sessão, desdobrando-se em solos conversacionais e argumentativos sem nunca se tornar excessivo ou redundante, antes parecendo reinventar-se em cada dobrar de esquina. Um assombro, tornando estranho que a sua fama não tenha ganhado maiores proporções entre os ícones do jazz.

Tanto mais que não seguia as pisadas de Coltrane ou Sonny Rollins na forma como “atacava” o tenor, variante do saxofone que escolheu para que, com o seu alto, não fosse apenas mais um continuador de Parker. O som de sax tenor que aqui está plasmado é muito seu, bem como o tipo de discurso narrativo. Também Jimmy editara pouco antes (1972) um disco eléctrico e “funky”, “The Gap Sealer”, mas o certo é que é neste que atinge o ponto de fervura.

O seu parceiro ao piano neste “must have”, Barry Harris, tem outro Xanadu incontornável, “Plays Tadd Dameron”, um trio com contrabaixo e bateria em que a seu lado aparecem Gene Taylor e Leroy Williams, lançado a meio dos anos 1970. Os temas reunidos são todos da autoria de Tadd Dameron, pianista que ficou na sombra dos mais celebrados Monk e Bud Powell, apesar de deles não desmerecer. É a homenagem de Harris ao obscurecido “beboper”, mas ainda assim o disco tornou-se num exemplo maior da sua pessoal arte pianística. O propósito foi tocar Dameron não parecendo Dameron, o que é amplamente conseguido, mais se distinguindo as influências de… Powell. 

Antes de Roland Kirk

Zoot Sims, Al Cohn e Tony Scott 

O tom é introspectivo, mesmo quando os tempos aceleram e as síncopes se sucedem, e as malhas tecidas intricam-se, mas sempre com aquele factor tão procurado pela Xanadu, o “swing”. O mesmo “swing” que voltamos a encontrar em “From the Attic of My Mind”, compilação datada de 1980 do flautista Sam Most com alguns pesos-pesados: Kenny Barron, George Mraz, Walter Bolden e, surpresa, um percussionista que na altura frequentava os “lofts” da segunda leva do free jazz, Warren Smith. Most estava então também a viver uma nova oportunidade – tinha sido nas duas décadas anteriores o grande representante da flauta no bop e reemergia com a introdução de renovados balanços na sua música.

Ainda bem que estas reedições inseriram Most no seu plano de trabalhos. Foi ele quem cunhou a técnica de combinação do instrumento com a voz que distinguiria Rahsaan Roland Kirk, que depois Ian Anderson, dos roqueiros Jethro Tull, adoptaria e desenvolveria, e que hoje é prática comum entre flautistas. Poucos sabem hoje de onde vem tal recurso, pelo que é bom contar a história por inteiro. Além disso, Most tinha um sopro cheio e profundo, contrastando com todos aqueles que tocam a flauta como se fosse um pífaro. Como aqui se ouve, sempre com os blues como base.

Outra jóia agora recuperada é “Heavy Love” (1978), da dupla formada por Al Cohn e Jimmy Rowles. Naquele tempo editar um álbum com uma formação que escapava ao convencional combo era um risco comercial tremendo, mas o certo é que este título ganhou estatuto de lenda. O repertório é constituído essencialmente por “standards”, mas nem por isso a sua interpretação é menos fresca (ainda hoje!) ou a música menos individualizada. Cohn e Rowles eram ambos veteranos do bop, mas estavam mais ou menos retirados das lides, com o segundo a trabalhar para a indústria de Hollywood. Tinham, no entanto, mais para dar e isso ficou comprovado.

O entorno da gravação é intimista, colocando em evidência a referenciação de Cohn nas águas calmas de Lester Young, mas a intensidade de algumas das passagens é desmesurada. Por vezes, o duo joga, inclusive, com os contrastes criados entre a imponência (a rapidez, o fôlego) do saxofonista e a calculada gentileza do pianista. Neste caso, temos um “groove” com requintes de veludo com a mesma dimensão poética que os dois músicos tiveram quando acompanharam musicalmente , muito tempo antes, as leituras de Jack Kerouac.

Al Cohn regressa ao universo Xanadu no duplo “Night Flight to Dakar / Xanadu in Africa”, com outro tenor ao lado, Billy Mitchell, e a secção rítmica formada por Dolo Coker, Leroy Vinnegar e Frank Butler. Os dois discos foram originalmente publicados em separado e documentam a viagem do grupo a várias cidades do Senegal, em 1982. Infelizmente, nunca foram editados os registos ao vivo que acrescentaram batuqueiros locais ao quinteto, o que seria um reforço pulsativo assaz interessante, mas o que aqui vem dá-nos uma boa ideia da atmosfera vivida em África.

Ao que parece, terá sido esta a primeira vez que norte-americanos gravaram jazz no continente-mãe, mas esse é um dado que perde relevância quando ouvimos Cohn e Mitchell a desafiarem-se mutuamente ou quando Coker sola de modos imprevisíveis, transformando fraseados elementares em desconcertantes abstracções ou situações complexas numa melodia de extrema simplicidade. Resumindo e concluindo, a Xanadu está de volta.

  • Kwanza (The First)

    Kwanza (The First) (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Albert Heath

    Albert Heath (bateria, tímpano, carrilhões); Jimmy Heath (saxofones tenor e soprano, flauta); Curtis Fuller (trombone); Kenny Barron (piano, Fender Rhodes); Ted Dunbar (guitarra eléctrica); Percy Heath (contrabaixo)

  • Picture of Heath

    Picture of Heath (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Jimmy Heath

    Jimmy Heath (saxofones tenor e soprano); Barry Harris (piano); Sam Jones (contrabaixo); Billy Higgins (bateria)  

  • Plays Tadd Dameron

    Plays Tadd Dameron (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Barry Harris

    Barry Harris (piano); Gene Taylor (contrabaixo); Leroy Williams (bateria)

  • From the Attic of My Mind

    From the Attic of My Mind (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Sam Most

    Sam Most (flauta); Kenny Barron (piano); George Mraz (contrabaixo); Walter Bolden (bateria); Warren Smith (percussão)

  • Heavy Love

    Heavy Love (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Al Cohn / Jimmy Rowles

    Al Cohn (saxofone tenor); Jimmy Rowles (piano)

  • Night Flight to Dakar / Xanadu in Africa

    Night Flight to Dakar / Xanadu in Africa (Xanadu Master Edition Series - Elemental Music)

    Al Cohn / Billy Mitchell / Dolo Coker / Leroy Vinnegar / Frank Butler

    Al Cohn, Billy Mitchell (saxofones tenor); Dolo Coker (piano); Leroy Vinnegar (contrabaixo); Frank Butler (bateria)