Callas

Ivo Perelman / Matthew Shipp: “Callas” (Leo Records)

Leo Records

Fabricio Vieira

O saxofonista brasileiro Ivo Perelman iniciou sua parceria com o pianista Matthew Shipp em meados dos anos 1990. Foi nessa época que gravaram pela primeira vez em duo, encontro que resultou no álbum “Bendito of Santa Cruz” (Cadence, 1997). Depois de um longo hiato, eles retomaram as colaborações, que renderam outro disco de piano e sax, “The Art of Duet” (Leo Records, 2013). Agora, a dupla lança um novo título, “Callas”. Registrado em duas sessões, realizadas no primeiro trimestre deste ano, “Callas” mostra que a parceria entre Perelman e Shipp atingiu um nível muito elevado.

“Callas” é um álbum duplo, com 16 faixas, todas tituladas com nomes de personagens interpretados em algum momento pela homenageada, a soprano Maria Callas. Como contou em entrevista à jazz.pt, o saxofonista passou por problemas de saúde no ano passado, uma lesão na garganta. «Acabei me tratando como se fosse um cantor e, no final, decidi fazer aulas de canto. (...) Enquanto estudava canto, passei a ouvir ópera com maior atenção e acabei me focando no trabalho da Maria Callas. Passei a ouvi-la cantando o tempo todo, surgiu uma inesperada paixão pelo trabalho dela», disse ele. E assim surgiu a ideia de homenagear a cantora em um disco. Nessa empreitada, Shipp não poderia ser parceiro melhor, estando, após gravar mais de dez álbuns com Perelman, em fina sintonia com as ideias do saxofonista.

Nunca antes o músico havia soado tão lírico como neste novo álbum, com uma delicadeza expressionista que faz de alguns temas peças verdadeiramente comoventes, como “Tosca” e “Mimi”. A paixão repentina de Perelman pela obra de Maria Callas não passa despercebida: mesmo sem querer emular o canto lírico ou embarcar em alguma ária imortalizada pela voz de Callas, o saxofonista encontrou uma forma de expressão que soa melódica como nunca; por vezes, o tenor quase balbucia palavras, cantarola fazendo com que sintamos muito próxima a dramaticidade que permeia as personagens citadas nos títulos das peças – Violetta, Aida, Turandot, Leonora, Medea, Amelia, muitas das clássicas heroínas operísticas são reverenciadas –, em um processo tão coeso que nos leva a esquecer que se trata, na realidade, de improvisação livre, nada de partituras ou roteiros preestabelecidos.

As peças são, de um modo geral, breves, oscilando entre quatro e seis minutos – exceções: a concentrada “Abigaille”, com seus 59 segundos, e “Maddalena”, que se desenvolve de forma mais extensa,  superando os oito minutos. O álbum, apesar de duplo, não é longo e poderia ter sido editado em apenas um disco – cada um deles tem cerca de 39 minutos. Mas Perelman preferiu deixar cada uma das duas sessões – uma registrada em 27 de fevereiro e a outra em 15 de março – separadas, como se fossem dois atos de uma ópera.    

Quem buscar a voz mais enérgica e explosiva do saxofonista, talvez se sinta um pouco decepcionado. Mas a ideia por trás de “Callas” era exatamente a de explorar a face mais lírica da parceria sonora desenvolvida com o pianista – e isso foi realizado com maestria. Ainda para este ano, Perelman e Shipp preparam o lançamento de mais um álbum em duo, “Complementary Colors”, também pelo Leo Records.

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    Callas (Leo Records)

    Ivo Perelman / Matthew Shipp

    Ivo Perelman (saxofone tenor); Matthew Shipp (piano)