This is Our Language

Rodrigo Amado: “This is Our Language” (Not Two Records)

NotTwo Records

Rui Eduardo Paes

Apesar de três anos terem passado destas gravações, o encontro no nosso pais, para concertos em 2012, de Rodrigo Amado com Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano clamava por uma edição em disco. Porque o que resultou musicalmente foi especialmente marcante e, acima de tudo, pelo facto de esses “gigs” terem possibilitado o encontro do saxofonista português com um dos seus heróis, McPhee precisamente. Com dois outros factores em equação: Kessler já colaborara com Amado em outros seus dois discos, e o líder desta sessão tem planos futuros com Corsano. Ei-la finalmente que surge, com o peso de uma retrospectiva pessoal com perspectivação para diante…

O título “This is Our Language” é particularmente simbólico, e não tanto pelo facto de aludir a dois clássicos de Ornette Coleman como “This is Our Music” e “In All Languages”. A referência ao mestre está disseminada pela música, mas fica sobretudo definido o quanto Amado preza o factor “linguagem”, e que no caso é a linguagem patrimonial, histórica, do jazz, com o seu tipo de fraseado melódico e o seu “swing” próprio. E tanto assim que o álbum abre (“The Primal World”, um título que diz muito) com a exposição das mais profundas raízes do jazz, as dos blues, e aí se vai regressando uma vez e outra ao longo da sua audição. Ou seja, se fica por demais evidente o vínculo free jazz da música tocada, os fundamentos estão bem mais abaixo.

Para o entendimento de muitos, free significa ir até aos extremos do expressionismo, com uma entrega agressiva e virulenta. Raramente é o que acontece aqui: os tempos lentos e médios predominam. E predominam apesar da intensidade das entregas individuais e colectivas, num “tudo por tudo” que impregna os sons de emotividade. Este CD alinha mais por uma estética do lamento do que pela chamada “estética do grito”, a ayleriana. E no entanto, tem muito pouco de melancólico ou lamechas – dela se desprende até uma jovialidade poética que torna mais leves materiais que poderiam ter o efeito contrário.

Há até como que uma transparência, uma fragilidade, que regra geral não conotamos com o estilo de Rodrigo Amado. Mais com o de Joe McPhee, cuja capacidade de focagem o leva a necessitar de menos notas, e menos “gritadas”, para obter o que procura. Esse exemplo é adoptado pelo próprio Amado: embora mais palavroso do que o seu convidado ilustre, este surge com um despojamento discursivo que, se comparado com o que mais tem feito, é um exemplo de contenção. Não é só quando se recorre a “overtones” ou sobreagudos que a energia se transmite; é também quando se mede a energia…

Curiosamente, essa abordagem fica mais clarificada na faixa em que McPhee não toca,”Theory of Mind”. O trompetista e saxofonista (alto neste registo) preferiu ouvir os seus pares a intervir no registo, mas a sua marca está lá, do início ao fim. O que significa que o que poderia passar como um tributo a Ornette acaba por ser uma homenagem a Joe McPhee, com a colaboração deste. Sem dúvida alguma, um dos melhores discos surgidos em 2015, seja qual for a latitude…

  • This is Our Language

    This is Our Language (NotTwo Records)

    Rodrigo Amado

    Rodrigo Amado (saxofone tenor); Joe McPhee (trompete de bolso, saxofone alto); Kent Kessler (contrabaixo); Chris Corsano (bateria)