Lulu Auf Dem Berg

Variable Geometry Orchestra: “Lulu Auf Dem Berg” (Creative Sources)

Creative Sources

Rui Eduardo Paes

Uma das mais importantes notícias da improvisação nacional no ano ainda em curso foi o regresso da Variable Geometry Orchestra de Ernesto Rodrigues, e logo para um concerto (a 3 de Maio) num local único, o Panteão Nacional, com a sua característica ressonância. Este disco documenta essa actuação de um ensemble que, como o nome indica, tem formação diversa, dependendo esta das circunstâncias e das ocasiões. O certo é que há alguns anos que o projecto estava interrompido, sobretudo pela dificuldade de acertar agendas tão preenchidas como as dos músicos desta área tão dinâmica. A também conhecida como VGO, que já chegou a incluir 40 elementos, surge agora com 26.

Entre eles estão músicos de outros países residentes em Portugal, como Albert Cirera e Yaw Tembe, e também alguns instrumentistas de visita a Portugal, designadamente Gerhard Uebelle e André Hencleeday, mas o grosso continua a ser constituído pela prata da casa. De salientar a contribuição de alguns dos mais notáveis nomes da cena portuguesa, como Sei Miguel, Paulo Curado, Miguel Mira (Rodrigo Amado Motion Trio) e Hernâni Faustino (Red Trio).

Aquilo que define a música enquanto organização intencional de sons é o ponto de partida do registo: a longa improvisação nasce dos sons acidentais da presença humana no espaço (vozes, movimentos, cliques de máquinas fotográficas, etc.), primeiro confundindo-se com o ruído ambiente e depois eclipsando-o, ou melhor, mudando a sua natureza.

Essa particularidade transmite-nos de imediato a impressão de que não há propriamente um início (e um fim, já que o termo do disco é simplesmente um desvanecimento) neste “Stream of Consciousness” e de que pouco, na verdade, distancia a música propriamente dita do entorno sonoro – o arrastar de uma cadeira, os passos no chão de pedra, as conversas em sussurro não são propositados, mas também eles têm uma lógica intrínseca. Essa ligação é feita nos primeiros minutos pela dança audível da vocalista Maria Radich, que de resto irrompe várias vezes do magma acústico com excelente oportunidade.

Uma (a música) e o outro (o ruído) são tratados por igual pelo espaço arquitectónico, e quando o que se toca é tocado na perspectiva dos sons que ficam suspensos no ar, determinando todos e quaisquer desenvolvimentos, é o espaço, mediador da emissão sonora, que se torna determinante. Tanto assim que surge como consequência e, em simultâneo, princípio. O que aqui temos é música espacial, uma constante titilação da arquitectura e dos materiais utilizados na construção da bela Igreja de Santa Engrácia.

Não surpreende, pois, que opte amiúdes vezes por “drones” ou bordões, forma eficaz de criar massa, e de se contradizer os ditos com intervenções pontilhísticas ou em staccato, nelas se reconhecendo imediatamente o trompete de Sei Miguel, o saxofone tenor de Albert Cirera e a viola de Ernesto Rodrigues.

Não sei se a descrita indefinição entre o que é musical e o que não é, ou relativa ao momento em que o som começa a ser e deixa de ser música, foi o que levou a titular este CD com uma referência à ópera inacabada de Alban Berg, “Lulu”. Se foi, até que faz sentido, pois uma peça musical que não começa e não termina é, como aquela, uma não-obra ou pelo menos algo que está, esteve, em vias de o ser. O que abre uma questão interessante  – será que podemos aplicar o conceito de “obra” à música improvisada, que só parece tal quando fica gravada em disco? A própria designação da peça com o procedimento usado, o de “stream of consciousness”, surge como um não-título. Inclusive, dificilmente a poderemos referir como “peça” ou como “tema”, termos demasiado circunscritos para explicar o que encontramos aqui. E o que encontramos aqui é uma música que vem da vida quotidiana e que a ela é devolvida.

Aliás, é isso que a torna tão natural, tão impregnada de existencialismo e de autenticidade. A VGO está, decididamente, de volta, e com argumentos reforçados…

  • Lulu Auf Dem Berg

    Lulu Auf Dem Berg (Creative Sources)

    Variable Geometry Orchestra

    Ernesto Rodrigues (viola, condução); Gerhard Uebelle (violino); Guilherme Rodrigues, Miguel Mira (violoncelos); João Madeira, Hernâni Faustino (contrabaixos); Adriana Sá (zither); Paulo Curado, Mariana Chagas (flautas); José Bruno Parrinha (clarinete alto); Paulo Galão (clarinetes soprano e baixo); Nuno Torres (saxofone alto); Albert Cirera (saxofones tenor e soprano); Sei Miguel (trompete de bolso); Yaw Tembe (trompete); Fala Mariam (trombone alto); Eduardo Chagas (trombone tenor); Maria Radich (voz, dança); Armando Pereira (acordeão); António Chaparreiro, Abdul Moimême (guitarras eléctricas); Carlos Santos (sintetizador analógico); João Silva (harmónio, electrónica); Nuno Morão (bateria); André Hencleeday (percussão electrónica); Carlos Godinho (percussão)