Os Pássaros Estão Estragados

José Valente: “Os Pássaros Estão Estragados” (JACC Records)

JACC Records

Rui Eduardo Paes

Certa vez, perguntaram a Karlheinz Stockhausen o que tinha ele aprendido com o tempo de estudo passado com o compositor Olivier Messiaen. Com a sua proverbial arrogância, o autor de “Kontakte” respondeu. «Aprendi a não me aproximar mais do canto dos pássaros.» Apesar da referência alada, o espaço musical ocupado por José Valente não é o mesmo de Messiaen, nem a sua música marcada pela improvisação e influenciada pelo jazz constitui uma ruptura equivalente à operada pelo alemão. Se o mestre deste baseou mesmo as suas partituras no piar das aves, aquelas a que Valente alude – as do escritor Afonso Cruz em “Boneca de Kokoschka” – são silenciosas. Não cantam, estão «estragadas».

Bem que o propósito do violetista de Coimbra radicado no Porto seja o de «voltar a ensinar os pássaros a cantar», como se lê nos diálogos de Cruz que inspiram este projecto a solo. Mas há uma diferença substancial: Messiaen viveu duas guerras mundiais e os seus bombardeamentos, pelo que os sons em que se refugiou foram os da Natureza, enquanto José Valente habita um mundo «desfeito nestas cinzas todas». Um mundo barulhento, sem dúvida, mas com o ruído que nos rodeia tornando ensurdecedor o silêncio que habita todas as coisas. O tempo de Valente não é, decididamente, o tempo de Messiaen e nem sequer o de Stockhausen. É um tempo “de depois”, em que a vontade de voltar a ouvir o cântico dos ares parece duvidar de si própria e da sua força transformadora. As guerras são outras, e se os conflitos armados convencionais nos parecem geograficamente distantes, há disparos e bombas à nossa porta. Em Paris, aconteceu mesmo numa sala de concertos.

E no entanto… No entanto há por aqui um rouxinol que canta. Há nesta música algo que sobrevive à última tentativa que se fez de criar música com os pássaros, a de Paul Panhuysen, que com a Canary Grand Band processou electronicamente as melodias de quatro canários. Estes ficavam tão excitados com o imediatista tratamento digital dos sons por eles produzidos que sofriam fulminantes colapsos cardíacos, levando ao abandono do projecto. Se em “Os Pássaros Estão Estragados” pressentimos o espectro da morte, há nele uma centelha de vida. Pode ser que, no próximo ano, as andorinhas voltem…

São várias as abordagens de Valente neste CD. Encontramos associações da sua viola com registos de ambientes sonoros naturais, e neles há pássaros a cantar, apesar de tudo. A articulação de música humana com “field recordings” é sempre um prazer para os ouvidos. O músico de Coimbra agora radicado no Porto tem aqui também a oportunidade de explorar uma sua característica de marca: o uso de “samples” sobrepostos do seu próprio instrumento, permitindo-lhe solar sobre duplos de si mesmo em “loop”. Num punhado de faixas surgem vozes, a sua e a de Ricardo Seiça, num “spoken word” que teatraliza ainda mais as situações.

O trabalho da viola vai dos fraseados típicos do jazz a uma música de câmara com espaço para a improvisação, indefinindo as fronteiras entre um idioma e o outro. Pelo meio surgem alusões às músicas do mundo, e se parecem extemporâneas, constituem uma bolsa de humor que alivia a carga algo densa do álbum. É desse tipo de distanciamento, dessa capacidade para se retirar da intriga que vai sendo urdida e avaliar as coisas de fora, que nasce a mensagem de esperança transmitida por “Os Pássaros Estão Estragados”. Em suma, está aqui uma obra notável (mais uma num rol de discos de grande qualidade editados este ano por portugueses) de um músico que se tem distinguido entre nós e que merece o mais amplo reconhecimento.

  • Os Pássaros Estão Estragados

    Os Pássaros Estão Estragados (JACC Records)

    José Valente

    José Valente (viola, electrónica, voz); Ricardo Seiça (voz – faixas 4 e 9); Pedro Adamastor (sonoplastia – faixas 1, 8 e 10)