Myrrah’s Red Book Act I / Act II

Ben Stapp & The Zozimos: “Myrrah’s Red Book Act I & Act II” (Evolver Records)

Evolver Records

Rui Eduardo Paes

Deixou boas memórias em Lisboa. O tubista Ben Stapp viveu em Portugal durante alguns anos e marcou o seu nome na evolução da cena nacional. Em destaque esteve a sua colaboração com outro imigrante musical que por cá tivemos, o brasileiro Alípio C. Neto, hoje uma das figuras de topo no jazz transalpino – e não só, a exemplo do trabalho que este desenvolve com o compositor Alvin Curran. Pois o regresso de Stapp aos Estados Unidos (vive agora em Queens, Nova Iorque), onde mergulhou a fundo no estudo e na prática da composição, está a dar frutos preciosos. O mais notável entre estes é “Myrrah’s Red Book”, ópera de que em 2015 foram publicados estes dois tomos, o segundo acabado de sair da fábrica…

Uma ópera, escrevi acima? Exactamente, e com resultados magistrais. Chão com poucas uvas nos territórios do jazz, natural seria que nela encontrássemos resquícios do pioneiro “Escalator Over the Hill” de Carla Bley e Paul Haines, mas também damos conta, aqui e ali, de alguma referenciação em Tom Waits e Captain Beefheart. Com uma substancial diferença: a escrita deriva do impacto que alguma música erudita contemporânea teve em Stapp, confessando o músico que a influência de Lutoslawski foi crucial no período de criação destas partituras, e as execuções reflectem certos usos da música improvisada mais experimental.

À frente de um “ensemble” de 13 elementos, com dois cantores a desempenharem os vários papéis, Kristin Slipp e Orpheus Christopher, Ben Stapp associou a si alguns nomes sonantes do jazz de ponta e da “new music” nova-iorquinos, como Oscar Noriega, Stephen Haynes, Kenny Warren e Satoshi Takeishi. Estes The Zozimos têm, logo à partida, uma instrumentação pouco usual, com uma frente de clarinetes e outra de trompetes (incluindo corneta e fliscórnio), uma dupla eléctrica / electrónica de guitarra e teclados e nenhuma parte de baixo a não ser a fornecida pela tuba. A música é bastante complexa, com várias camadas, combinação de tempos distintos e um mar de dissonâncias. As vozes de Slipp e Christopher são como a cereja em cima do bolo, colando tudo.

“Myrrah’s Red Book” surgiu do interesse de Ben Stapp pelo pensamento de Carl Jung. Com base nas leituras que fez do fundador da psicologia analítica, e sobretudo do seu “Red Book”, escreveu uma história e passou-a a Peter Bulmer, que preparou o libreto a partir dela. Trata-se de um “thriller” sobre a ténue fronteira entre o real e o imaginário, com a intervenção de um detective privado que age como um decifrador daquilo que vem de um lado e do outro da vida da protagonista, uma mulher (Myrrah, desempenhada por Kristin Slipp). A trama musical acompanha esta indefinição, conjugando o reconhecível (a linguagem jazzística) e o bizarro (são muitas as situações musicais que se deslocam dos figurinos estabelecidos), o rigor da interpretação com o delírio das improvisações.

Entretanto, Ben Stapp tem uma aspiração: fazer uma versão desta ópera com músicos portugueses, para a apresentar em Portugal. Oxalá isso se proporcione…

  • Myrrah’s Red Book Act I / Act II

    Myrrah’s Red Book Act I / Act II (Evolver Records)

    Ben Stapp & The Zozimos

    Ben Stapp (tuba, composição); Peter Bulmer (libreto); Kristin Slipp, Orpheus Christopher (vozes); Stephen Haynes (corneta); Kenny Warren (trompete); David Smith (trompete, fliscórnio);  Justin Wood (flauta, clarinetes soprano e alto); Oscar Noriega (clarinetes baixo e soprano, saxofone alto); Vasko Dukovski (clarinetes soprano e baixo); Hulusi Rebekah Heller (fagote); Dustin Carlson (guitarra eléctrica); Shoko Nagai (teclados, electrónica); Satoshi Takeishi (bateria, percussão)