Mécanosphère: “Scorpio” (Raging Planet)

Rui Eduardo Paes

Há 10 anos que os Mécanosphère não lançavam um disco, mas esse desaparecimento dos escaparates é finalmente contrariado pelo novo “Scorpio”, álbum que, como todos os anteriores, desafia catalogações e desarruma territórios estabelecidos, mas surge mais sedimentado e definido nos seus propósitos. Agora sem as intervenções de dois dos mais importantes músicos da cena do Porto da improvisação livre, do jazz criativo e do experimentalismo, Gustavo Costa e Jonathan Uliel Saldanha, são outros que nele encontramos, como o contrabaixista Henrique Fernandes (Lost Gorbachevs) e o baterista/percussionista João Pais Filipe (Fail Better!, Pedra Contida). A nova formação inclui Rui Leal e duas conhecidas figuras da BD (publicaram recentemente o aplaudido “Terminal Tower”) que também desenvolvem actividade na música, André Coelho (ex-Sektor 304) e Manuel João Neto. De fora do País vêm as contribuições do artista radiofónico norte-americano Gregory Whitehead e da cantora alemã Annina Dupuis. O núcleo de base continua a ser formado pelo francês, por cá radicado, Benjamin Brejon, e pelo vocalista dos Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal.

Sempre com a percussão e a electrónica a desempenharem papéis estruturantes, o jazz que por estes oito temas ouvimos surge enovelado por elementos dos vocabulários de outras práticas musicais, e designadamente do rock, do industrialismo, do dub, do hip-hop e da electroacústica mais exploratória. Entre “spoken word” e “groove” instrumental vai-se estabelecendo uma música escura e muito densa que reproduz os ambientes imaginados por autores como J.G. Ballard e William S. Burroughs. Se nesse aspecto nada de diferente há a assinalar, o certo é que este novo investimento, apresentado pelo próprio grupo como um «manifesto polifónico», é o mais amadurecido e claro de sempre e talvez até aquele que, apesar da variedade dos materiais, tem um foco mais preciso. Merece atenta audição.