Mette Henriette

Mette Henriette: “Mette Henriette” (ECM)

ECM

Rui Eduardo Paes

Poucas vezes, em anos recentes, Manfred Eicher apostou tanto num novo nome como no lançamento deste duplo álbum homónimo – o primeiro de Mette Henriette, saxofonista (tenor) norueguesa de ascendência lapónia. A maneira de estar na música e as ideias desta jovem instrumentista e compositora são únicas, e o patrão da ECM terá percebido que estava a assistir ao nascimento de uma estrela – uma que poderia juntar à meia-dúzia que foi promovendo em mais de 40 anos de produções. O agrado e a perplexidade que esta edição tem causado dão-lhe razão.

“Mette Henriette” junta um disco em trio, com o pianista Johan Lindvall e a violoncelista Katrine Schiott a juntarem-se a Henriette, e outro com um ensemble de 13 elementos que combina músicos de jazz (por exemplo, Per Zanussi, Eivind Lonning, Per Oddvar Johansen) e clássicos (os membros do Cikada Quartet).Somos muito depressa colocados num universo minimalista e rarefeito marcado pela melancolia e por uma extrema sensação de fragilidade. Um mundo à parte sobre o qual pairam nuvens escuras, mas ao mesmo tempo com um brilho que parece unir as poéticas excentricidades de um Erik Satie com o sentido de maravilhamento da música que Badalamenti escreveu para os filmes de David Lynch.

Se o estilo composicional de Mette Henriette não destoa de muitos dos seus pares escandinavos, fica desde logo marcada uma diferença: podem ser algo próximas as referências folclórica e erudita, mas a “visão” desta inesperada descoberta é alimentada não só pela música de câmara que lida primordialmente com o som, desde Giacinto Scelsi, como pela livre-improvisação, área em que, de resto, habitualmente se desloca. Ou seja, há por aqui uma propensão para o abstraccionismo que não é habitual encontrar na editora de Munique.

Mesmo no que respeita ao factor jazz é difícil situar Henriette. A influência de um John Coltrane não é detectável na abordagem desta ao tenor, e nem sequer há qualquer dívida formal a Jan Garbarek, o que se torna ainda mais inesperado sabendo da localização geográfica desta proposta. Quando, nos momentos mais intensos, nos parece ouvir o “overblowing” roufenho de um Gato Barbieri, ficamos cientes de que o que se procura é, não um alinhamento com qualquer coisa que antes tenha sido realizada, mas tão-só manter uma crueza e um grão que contrastem com o imperante lirismo. O sopro e a acção da saliva tornam-se tão importantes, no plano auditivo, quanto as notas tocadas. É como se víssemos o pincel numa pintura e não apenas o que está pintado.

Se o trio nos deslumbra, o que nos aguarda no CD reservado para a “sinfonieta” deixa-nos totalmente rendidos. O que Henriette faz com as cordas de arco, os sopros, o bandonéon e a secção rítmica que tem ao dispor é sublime. Já disse ela numa entrevista que o seu trabalho nos dois formatos funciona por «alongamento» e «miniaturização», e o curioso é que a sua música não se adensa coma mediação de um agrupamento de maior número: antes pelo contrário, torna-se mais transparente, mais contida e silenciosa. As peças são, regra geral, muito curtas – 35 na soma final. Mas se no início podemos ter a impressão de que isoladamente não se resolvem, compreendemos no encadeamento das mesmas que o que vem depois continua ou completa o que antes ficara implícito. Há motivos que regressam ou surgem simples alusões ou implicações, numa subtil interligação que mantém o foco da nossa atenção apesar de todas as mudanças entretanto verificadas. E isto sem nunca se usar enquadramentos de suite, libertando a música de constrangimentos fixos.

“Mette Henriette” é uma lufada de ar fresco no catálogo da ECM e no jazz da actualidade, sendo de prever que terá enormes consequências. É verdade que vamos assistindo na cena alternativa do Norte da Europa a bastos exemplos de inovação, mas nenhuma tão grande quanto esta acontecia há muito tempo vinda do próprio coração do jazz que ali se pratica. Aliás, é isso que surpreende mais: esta poderia ser uma música difícil, se não fosse tão estranhamente acessível e prazenteira.

  • Mette Henriette

    Mette Henriette (ECM)

    Mette Henriette

    Mette Henriette (saxofone tenor); Eivind Lonning (trompete); Henrik Norstebo (trombone); Andreas Rokseth (bandonéon); Sara Ovinge, Karin Hellqvist, Odd Hannisdal (violinos); Bendik Bjornstad Foss (viola); Katrine Schiott, Ingvild Nesdall Sandnes (violoncelos); Johan Lindvall (piano); Per Zanussi (contrabaixo); Per Oddval Johansen (bateria, serrote)