Andreas Schaerer meets Arte Quartett & Wolfgang Zwiauer: “Perpetual Delirium” (BMC)

Rui Eduardo Paes

O cantor Andreas Schaerer esteve em Lisboa este ano, para um duo com o baterista Lucas Niggli no Jazz im Goethe Garten, e não impressionou. O que fez no jardim do Goethe Institut pecou pelo facilitismo da espectacularidade vocal, destinada a impressionar a assistência pelos menos nobres motivos – insistiu, por exemplo, num “beat boxing” que esteve muito aquém daquele que ouvi de miúdos nascidos em Portugal com actividade no hip-hop. Foi com curiosidade, pois, que soube da associação ao músico da Suíça do magnífico Arte Quartett, agrupamento de saxofones que já trabalhou com figuras tão distintas quanto Terry Riley, Fred Frith, Urs Leimgruber e Tim Berne, e do baixista virtuoso Wolfgang Zwiauer. “Perpetual Deliriunm” cumpre o prometido no título: afinal, Schaerer pode muito mais do que então mostrou, e não só com a sua voz como na qualidade de compositor.

Com o jazz como base de sustentação (aquela que partilhou já com Bobby McFerrin, Barry Guy, Mars Williams e Kalle Kalima), mas percorrendo um espectro que o conduz do rock progressivo (passagens há no disco que lembram os franceses Magma) à música de câmara contemporânea, o que aqui vem não só compensa a má impressão deixada em Julho passado como o coloca entre os “happy few” do canto masculino que realmente importa seguir. Poucas vezes um projecto assim tão reflectido, tão conceptual até, consegue tal nível de expressividade. E não necessariamente porque há algo de escatológico nos sons produzidos. Todo o conjunto nos enche as medidas, pois é colocado em prática um pensamento instrumental que vai muito para além da voz e do suporte desta. Schaerer: volta, estás perdoado.