The Invading Past and Other Dissolutions

Filipe Felizardo: “Volume IV: The Invading Past and Other Dissolutions” (Three:Four Records)

Three:Four Records

Nuno Catarino

Antes de mais, as apresentações. O guitarrista Filipe Felizardo - n. 1985, Lisboa - tem trilhado um percurso ímpar, também com vasto trabalho desenvolvido como artista visual. Na música, Felizardo andou pelo rock e pelo noise, explorou a guitarra com (mais e menos) “feedback”, passou por bandas como Häsqvarna, Prisma, Acre (com Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini) e Bandeira Branca (duo com Bruno Silva), além de colaborar pontualmente com outros músicos – como aconteceu com o trio Pão, com Margarida Garcia ou com Luís Lopes. Mais recentemente, Felizardo apresentou o projecto The Orm, duo de guitarras com Tiago Silva (que actuou na Galeria ZDB na primeira parte de Bill Orcutt).

Ao longo dos anos, Felizardo tem editado gravações em diferentes registos: “Övöo” (2010), “lII = 207.8°, bII = ?56.3°” (2011), “Guitars for White Noise” (2012, em duo com Bruno Silva), até chegar a “Guitar Soli for the Moa and the Frog” (editado na Sshpuma Records, subsidiária da Clean Feed) – talvez o primeiro monumento maior da discografia felizarda. Pela editora Wasser Bassin foi publicado “Volume III: O Water - O Excrement - O Dissolution - Before the Day of the Last Beginning”, num “split” com My Life on Weekends (2013).

Agora, pela editora franco-suíça Three:Four Records, que também já lançou discos de Norberto Lobo, David Maranha e Riccardo Dillon Wanke, e que já havia editado “Volume II: Sede e Morte” (2014), chega o novo “Volume IV: The Invading Past and Other Dissolutions”. A empreitada não é pequena: este é um disco duplo, com quatro lados cheios de música, num total de 11 temas. Se a capa do seu “Sede e Morte” era uma citação/homenagem a John Fahey (evocando “Dance of the Death and Other Plantation Favorites”), referência fundamental e recorrente, neste novo “The Invading Past…” a capa imita/recorda Les Rallizes Denudés (também referência essencial).

Esta música é o resultado de uma residência no Alentejo profundo, em Moinho da Fonte Santa (Alandroal), onde o guitarrista teve oportunidade de trabalhar lentamente - compor, interpretar e transformar cada tema, sem a pressão da urgência citadina. Ao longo das várias rodelas são apresentados esboços de temas, melodias que são trabalhadas e exploradas. Há temas mais breves e concisos, há temas onde a composição é mais desenvolvida, há momentos de pura exploração sonora. A improvisação é um dos processos utilizados, mas o trabalho de Felizardo parte quase sempre da composição.

O lado 1 do primeiro disco abre com uma peça epicamente intitulada “Canção para o Meu Pai”. O nome pode ter sido inspirado na “Song for My Father” de Horace Silver, mas o universo sonoro é distinto. Há uma introdução suja com a guitarra a abusar do “amp”, até que chega a melodia cristalina – é o fantasma de John Fahey que regressa, naquele doce dedilhar folk. Essa primeira metade do primeiro disco fecha com “Frog Princess Choir Pt.2”, peça curta que complementa o primeiro quarto do álbum.

Em contraste com os temas do lado A, os temas do lado B do primeiro disco são lentos, sujos e arrastados. Em “Frog Princess Choir Pt.1”, “A Conference of Stones and Thing Previous to You and Me” e “Centrifugation at Casal Moinho” ouvem-se ao longe ecos da América profunda, enlameados pelo “feedback” controlado. Na primeira metade do primeiro disco havia luz, nesta segunda metade há trevas e sobra medo e escuridão.

Segundo disco, lado A: “Your Horrible Memory” continua a toada dos temas anteriores, mas em “The Headache of Eadweard Muybridge” já voltam a entrar raios de sol, com a melodia a assumir protagonismo. Na mais breve “Frog Princess Choir Pt.3”, Felizardo explora tranquilamente os sons da guitarra e a relação com o amplificador (tema interrompido de forma brusca). Quando se chega aos 75% do álbum, o título blues “Ain't Gonna Get Outta This Floor No More” não engana, embora o lamento seja contido.

O lado B do segundo disco junta mais dois temas, “Lament of The Frog King” e “Sligo River Blues”, que fecham a edição de forma coerente, condensando os elementos das faixas anteriores, como se fossem uma súmula da guitarra nebulosa de Felizardo. Se nos pareceu que ouvimos Fahey logo no início do disco, no final a sua presença é finalmente assumida: “Sligo River Blues” é uma revisão do tema de John Fahey, que nas mãos de Felizardo ganha uma nova dimensão, uma aura pantanosa.

É só isto. Uma guitarra, um amplificador. Temas que se transformam, esboços que ganham vida. Um disco grandioso, na forma e no conteúdo.

  • The Invading Past and Other Dissolutions

    The Invading Past and Other Dissolutions (Three:Four Records)

    Filipe Felizardo

    Filipe Felizardo (guitarra eléctrica)