Veryan Weston / Jon Rose / Hannah Marshall: “Tuning Out” (Emanem)

Rui Eduardo Paes

Já por duas vezes Veryan Weston experimentou com Jon Rose diferentes tipos de afinação, como ouvimos em “Temperament” e “Tunings & Tunes”. Com Hannah Marshall teve colaborações anteriores em “Haste” (trio com Ingrid Laubrock), “Sols” (quinteto com Laubrock, Tony Buck, Mandy Drummond e Luc Ex) e “Unlocked” (um outro trio, desta vez com Satoko Fukuda). Neste duplo álbum, o violinista e a violoncelista juntam-se ambos pela primeira vez ao músico britânico. Se, nos discos com Rose, Weston tocava vários pianos e órgãos, para além de cravo, harmónio e, no primeiro caso, um teclado electrónico, neste “Tuning Out” o teclista centra-se em órgãos de tubos de várias igrejas de Liverpool, York, Newcastle, Sheffield e Londres. Todos eles velhos instrumentos que, pela sua natureza mecânica, fazem as transições de acorde para acorde com uma incerteza de tom e timbre que os diferencia dos actuais órgãos eléctricos. É essa indefinição que se explora ao longo dos dois CDs, com as cordas de arco (re-)afinadas de modo a interagirem por igual.

Ou seja, Weston introduz os parâmetros sabendo que, regra geral, as primeiras manifestações sonoras distam microtonalmente das notas ou surgem como uma parcela dos harmónicos tocados. Por sua vez, Rose e Marshall prolongam essas intervenções ou multiplicam-lhes os efeitos. Trata-se, pois, de mais uma deslumbrante incursão pelo temperamento “desigual”, ora evocando outros tempos da música, ora inventando novos caminhos, sempre por via da improvisação. O resultado soa como algo de primordial, perdido no tempo, e como algo que deriva da mais inventiva das imaginações. Veryan Weston é mesmo o brilhantíssimo protagonista de uma música que é simultaneamente antiga e nova. Vem realizando, edição em edição e concerto em concerto, o que no papel parece um contra-senso. Tivesse eu ouvido este trabalho antes e constaria na minha lista dos melhores de 2015…