Marco von Orelli 5: “Alluring Prospect” (Hatology)

Rui Eduardo Paes

O trompetista suíço Marco von Orelli tem uma ligação a Portugal, e esta ganhou expressão como projecto Big Bold Back Bone, no qual participam dois músicos nacionais, Luís Lopes e Travassos. Essa conexão é salientada logo na abertura do segundo álbum do músico no catálogo da prestigiada Hatology (colecção integrada na mais ampla Hat Hut), com o evocativo “Lisboa Days”. Não se fica, no entanto, por aí: a gravação foi realizada na capital portuguesa, e designadamente no Namouche de Joaquim Monte. Com o apoio do trombonista Lukas Briggen, do pianista Michel Wintsch e dos ritmistas Kaspar von Grungen (contrabaixo) e Samuel Dunsler (bateria), o que vem em “Alluring Prospect” merece com toda a propriedade a designação de “jazz progressivo”, e isso porque congemina uma visão pós-modernista (mas sóbria, como convém acrescentar) do jazz em que vão emergindo recursos linguísticos provenientes de um certo rock de dimensão “arty” e da música contemporânea.

Se os luso-transalpinos BBBB optam liminarmente pela improvisação, a escrita é neste disco o eixo e o zénite de todos os acontecimentos. Uma escrita elaborada, com mais substância do que qualquer coisa que tivesse sido urdida para proporcionar solos improvisados, mas que nunca chega a ser maneirista pelo facto de cada fórmula, cada ideia, ter uma razão de ser e uma lógica interna. Não complica por complicar, é, e no que é não há contradição alguma com o lado “groovy” por onde os temas passam, introduzido pelo sintetizador daquele que é – como repetidamente aqui se confirma – um dos mais interessantes pianistas europeus da actualidade, e continuado por Grungen e Dunsler. Ou seja, se está nestas faixas, sem dúvida, um jazz intelectualizado, o dito sabe gingar e divertir-se, seduzindo-nos os ouvidos.