Marco Mezquida / Manel Fortià: “My Old Flame” (Ed. de autor)

Rui Eduardo Paes

Podemos pegar neste disco de várias maneiras. A mais evidente seria pela homenagem que o pianista Marco Mezquida e o contrabaixista Manel Fortià prestam a Charlie Haden, com o segundo a assinar a peça de abertura, “Haden Song” precisamente, sob o sortilégio de um dos mais líricos dedilhadores que a variante grave da família do violino já teve. A segunda está como que implicada, pois a associação destes dois instrumentos e destes dois instrumentistas de Espanha remete-nos para o duo de Haden com Keith Jarrett ouvido nos álbuns “Jasmine” e “Last Dance”. A terceira levar-nos-ia para uma outra decorrência, a arte de tocar um “standard” sem que tal constitua uma opção de passividade criativa (“All or Nothing at All”, de Arthur Altman), bem como essa outra arte, bem difícil, de pensar um novo tema como se fora algo sem tempo (“La Hora Fértil”, peça de Mezquida). Poderíamos ainda “entender” este disco pelas suas antíteses, e sobretudo pela que vem com “Researching Has no  Limits”, título emblemático de Ornette Coleman (gravado com Haden), e emblemático porque coloca diante de nós um horizonte não comemorativo, feito de trabalhadas adivinhações e descobertas.

Pela minha parte, pus-me a ouvir “My Old Flame” fixando a atenção no poder que uma simples melodia pode ter. Há música ainda quando não existem melodia, harmonia e ritmo, bastando haver algum tipo de organização sonora, mas nada satisfaz mais do que uma linha melódica bem urdida e esta edição está grávida delas. Se “Maruxinha”, “Menguante” (ambos de Mezquida) e “Spring is You” (Fortià) são bons exemplos, o fecho do CD com “Something” de George Harrison para os Beatles diz tudo. Só porque sim.