Michael Formanek Ensemble Kolossus: “The Distance” (ECM)

Rui Eduardo Paes

O disco ainda vem quente das máquinas. Só em Fevereiro, aliás, será lançado nos Estados Unidos. E mais uma vez se compreende porque é que a ECM decidiu editar “The Distance” logo no início do ano: já em outras ocasiões foi no arranque de uma nova temporada que a “label” alemã introduziu obras consideradas por Manfred Eicher como “statements” com potencial para alterar percepções ou o próprio curso da música. Neste trabalho, o contrabaixista e compositor Michael Formanek está à frente de uma orquestra de 18 elementos alistados em Nova Iorque (ele é de Baltimore), muitos deles nomes de primeiríssimo plano e, curiosamente, parte do universo da portuguesa Clean Feed: Ralph Aleassi, Dave Ballou, Tim Berne, Patricia Brennan, Kris Davis, Shane Endsley, Alan Ferber, Tomas Fujiwara, Jacob Garchik, Ben Gerstein, Mary Halvorson, Kirk Knuffke, Jeff Nelson, Oscar Noriega, Brian Settles, Chris Speed, Loren Stillman e Mark Helias, este como maestro.

Quando a segunda peça do álbum roda no leitor percebemos os motivos. Formanek não faz por menos: a música para “big band” que nos propõe pode evidenciar múltiplos referentes do passado (tem algo de ellingtoniano e descola de certos parâmetros que Messiaen desenvolveu nas suas composições para órgão de igreja), mas pretende abrir pistas para o jazz orquestral do século XXI. A ambição desta obra tem esse tamanho, mas não é megalómana. Aliás, se há passagens verdadeiramente épicas (abrir caminho convida a este tipo de abordagem), tirando partido dos instrumentos e dos instrumentistas envolvidos, o certo é que tão alargada panóplia de timbres leva-o a deter-se em algo que lhe é particularmente grato: a exploração de texturas e dinâmicas, com desconstrução do “tutti” em múltiplos pequenos grupos e, sim, com ideias inovadoras e até inesperadas. Encontram-se nestes temas, de forma muito assumida, ecos de Charles Mingus, Sun Ra, Anthony Braxton e Henry Threadgill, mas a marca Michael Formanek sobrepõe-se a tudo o mais. Este trabalho do Ensemble Kolossus vem mudar tudo, e a tal ponto que o que se fizer a seguir com um ensemble destas dimensões não poderá contornar o que aqui vem…