Cròniques 4

Albert Cirera / Carlos “Zíngaro”: “Cròniques 4” (Discordian Records)

Discordian Records

Rui Eduardo Paes

Para quem, como o autor destas linhas, prefere o objecto disco às edições que vão sendo colocadas na Web pelas “netlabels”, muitos registos (chamam-lhes também “discos”, o que é incompreensível) acabam por passar despercebidos. E como muitos dos apreciadores da música improvisada e do jazz criativo são parte desta velha guarda que gosta de CDs e vinis, de consultar fichas técnicas em papel e de apreciar os grafismos sem ser através de um monitor, essa música arrisca-se a não encontrar ouvintes. Esperemos que não seja esse o caso de “Cròniques 4”, o episódio da série que o saxofonista catalão Albert Cirera lançou a público, no sítio da Discordian Records, com o violinista Carlos “Zíngaro” a seu lado. E porquê? Bom, porque se trata de uma pérola desse processo de escuta mútua e de pesquisa das virtualidades do som organizado espontaneamente a que chamamos improvisação. Se os anteriores tomos de Cirera com Olle Vikstrom, Ulrich Mitzlaff e Alvaro Rosso tinham impressionado, este é uma preciosidade que estava melhor num verdadeiro álbum.

O primeiro tema, “From There Above Sides Wherefrom You Come, Run!”, acontece com “slap tongues” do saxofone tenor e ataques percussivos do violino, derivando para sobreagudos de ambos os instrumentos. Cerramos os dentes e fazemo-nos à viagem. Os dois músicos não quiseram facilitar e avisam-nos disso logo no começo. Mais adiante, porém, instala-se a calmaria, dá-se lugar ao silêncio, e se os ouvidos se tinham retraído, em instinto de protecção, passam a debruçar-se sobre o que acontece, por vezes quase imperceptivelmente. Magnífica estratégia, primeiro de confrontação e finalmente optando por chamar e seduzir. Estabelece-se um registo intimista, mas manifestações de inquietude vão emergindo, com as restantes peças a jogarem sempre nessa dualidade. Desfaz-se um mito do lirismo romântico que ainda vai dominando nos nossos dias: a introspecção musical e o diálogo a dois não têm de ser serenos ou, quanto muito, melancólicos. As pessoas discutem e entram em desacordo. Aliás, logo na faixa 2, “Suffering”, o sax parece esferovite raspada no chão e o cordofone remete-nos para a música clássica. Um paradoxo, certamente, mas funcionando precisamente porque não há pleonasmos. Ouvir o outro não é aceitar e repetir o que diz, é dar-lhe a devida importância. Do mesmo modo, improvisar não é estabelecer compromissos ou denominadores comuns, é aceitar a divergência.

Tudo se desenrola em constante desafio aos conceitos instalados de beleza, numa retoma dos princípios Dada ou Fluxus. Os sons não surgem porque são bonitos, surgem porque são pertinentes, apelando à utilização de técnicas extensivas. Os materiais introduzidos não pertencem a nenhuma estética definida: em questão de segundos, vai-se da elaboração do tipo de texturas que conotamos com as novas tendências da música livremente improvisada para um fraseio mais reconhecível como free jazz ou como improvisação “old school”, mas no momento em que identificamos alguma coisa como pertencendo aqui ou ali os desenvolvimentos seguem para outro lado. Ou, simplesmente, são interrompidos, como acontece em “The Ice Butcher” e “Wall Memory”, que não chegam a um minuto de duração, ou em “The Lazy Killer”, com os seus 1’ 31’’, nestes casos com um frenesim que nos agita. Com um truque: não nos motiva alegremente à acção, antes nos incomoda e angustia, adensando a geral tensão. Podem ser miniaturas, mas estão prenhes de consequências.

Depois, se “East Wisper Dust” é uma ode à contenção e até à contemplação, em anti-clímax, “Kaleidoscope” faz o que o título promete: observa uma questão por todos os seus prismas, multiplicando-se em abordagens, perspectivas, percepções, conclusões, ora com profusão de argumentos, ora detendo-se demoradamente em apenas um deles, entre pontilhismos e “drones”. O final com “Vicissitudes of a Divorce” volta a aludir à vida real, numa descrição das emoções implicadas pela discórdia (mais uma vez, e para repetir o termo que dá nome à editora de Barcelona responsável por este lançamento) numa relação entre indivíduos. Mas curiosamente, a “mensagem” trazida por esta improvisação conjuga-se com a da antes ouvida “Without With”, que nos transmite a noção de que só se está “sem” com, que essa circunstância é inseparável de uma ligação. O certo é que Cirera e “Zíngaro” surgem aqui com um entrosamento notável. É como se tivessem tocado sempre juntos, o que sabemos não ser verdade. O encontro só se proporcionou agora, para esta gravação disponibilizada num disco que… não é um disco.

  • Cròniques 4

    Cròniques 4 (Discordian Records)

    Albert Cirera / Carlos “Zíngaro”

    Albert Cirera (saxofones tenor e soprano);  Carlos “Zíngaro” (violino)