Larry Ochs:”The Fictive Five” (Tzadik)

Rui Eduardo Paes

Larry Ochs disse uma vez em entrevista que o problema da cobertura jornalística das apresentações públicas do seu Rova Saxophone Quartet estava no facto de, nas redacções, não se saber onde arrumar este grupo de saxofones, se na secção do jazz ou na da música contemporânea. No caso de “The Fictive Five” não há possibilidade de confusões: logo no primeiro tema o universo habitado é, claramente, o dos legados do John Coltrane da fase mística, de Ornette Coleman e de Albert Ayler, se bem que em contexto actual. O saxofonista californiano junta neste disco quatro músicos da cena de Nova Iorque que bem conhecemos do catálogo da Clean Feed, Nate Wooley, Pascal Niggenkemper, Ken Filiano (sim, são dois os contrabaixos!) e Harris Eisenstadt. Consequência: temos aqui um magnífico caso desse tipo de abordagem que a revista Wire, tão afoita a inventar novos rótulos (não lhe bastavam os já existentes), chamou de “fire music”. O certo é que arde, e por vezes com labaredas bem altas.

O álbum cruza duas perspectivas bastante caras a Ochs. Por um lado, a escrita de “composições para improvisadores”, ou seja, de estruturas e figuras chave que possam ser prolongadas, convertidas, desmontadas e personalizadas pelos seus intérpretes no momento da execução. Por outro, a criação, entre o planeado e o intuído, de um sentido de narrativa e de uma ambiência que tenham um carácter cinematográfico. Daí as dedicatórias a Wim Wenders em “Similitude”, a Kelly Reichardt em “Translucent” e ao instalacionista e autor de filmes de animação William Kentridge em “By Any Other Name”, seguindo uma tradição iniciada por Steve Lacy. O motivo está no entendimento de que a música não é para “entender”, e sim para “ver”, ou seja, para suscitar a imaginação. Podemos tentar seguir as confluências deste free jazz de depois do free com as artes visuais de Wenders, Reichardt e Kentridge, o que até seria um exercício interessante se não derivasse do tal desejo de compreender lamentado pelo líder, ou dar largas ao nosso próprio onirismo – seguindo, de resto, o exemplo do próprio Larry Ochs. Optar pela segunda possibilidade é a que nos preenche mais. Quando a música vai mais além da música é como se se produzisse um milagre.