Food: “This is Not a Miracle” (ECM)

Rui Eduardo Paes

A parceria da Rune Grammofon com a ECM pode ter sido de curta duração, mas permitiu que a editora de Manfred Eicher virasse os ouvidos para o novo jazz, ou a nova música urbana alicerçada sobre o jazz, que tem surgido na Escandinávia. Casos houve, inclusive, de grupos da Rune que transitaram, após o divórcio entre as duas “labels”, de uma para a outra, e o mais notável foi o dos Food de Iain Ballamy e Thomas Stronen. Ainda que com outra configuração: se originalmente se tratava de um quarteto com Arve Henriksen e Mats Eilertsen, o projecto passou a estar concentrado nos seus dois co-líderes. Se bem que com convidados especiais nas apresentações públicas, como Nils Petter Molvaer, Jan Bang, Koichi Makigami, Prakash Sontakke, Eivind Aarset e Christian Fennesz. Neste álbum, é o último, o mais habitual colaborador do duo, que ouvimos, ora com a sua guitarra, ora manipulando as electrónicas.

Virão em parte de Fennesz os traços de pós-rock e do experimentalismo digital que se pratica na chamada “electronica” que encontramos neste “This is Not a Miracle”, mas desde 2002 e o álbum “Veggie” (antes o assento estava numa perspectivação free) que a identidade dos Food incide no encontro das premissas do jazz com as sonoridades eléctricas da actualidade. E isso acontece aqui em dois planos, um marcado pelo intenso “groove”, não raro entrando nos padrões pulsativos do hip-hop e do drum ‘n’ bass, e o outro por um ambientalismo paisagístico que não é estranho a Brian Eno. São vários mundos que confluem nestes temas, cada um determinado pela complexidade referencial colocada em jogo. Ballamy vai do colorismo saxofonístico de David Jackson (Van Der Graaf Generator) a um fraseamento tipicamente coltraneano, se bem que temperado com a candura melódica de um Garbarek. Stronen é um aglutinador de perspectivas rítmicas e texturais, num espectro que vai do jazz ao techno com tudo o que se possa imaginar pelo meio (África, por exemplo). Fennesz surge como o habitual orquestrador, tratando dos envolvimentos harmónicos, por vezes bastante densos, e das distorções guitarrísticas, algumas vizinhas do psicadelismo. O resultado é tão estranho – ou nem tanto assim, para o ouvinte já familiar com a realidade musical da Noruega – quanto sedutor.