Espécie de Trio: “Por Outras Palavras” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

A inclusão de canções de José Afonso (“Venham Mais Cinco”), Chico Buarque (“Construção / Deus lhe Pague”) e Tom Waits (“Innocent When You Dream”) poderá aproximar este projecto musical desse outro chamado Songbird (Luís Figueiredo e João Hasselberg) que também revisita o universo da música popular. No novo “Por Outras Palavras” do portuense Espécie de Trio todo o restante alinhamento centra-se, porém, no rock – o que depreende outro tipo de focagem. O disco abre com “Space Odity” de David Bowie e seguem-se Pink Floyd (“Hey You”), The Doors (“Waiting for the Sun”), Stranglers (“Golden Brown”), Beatles (“And I Love Her” e “Eleanor Rigby”) e U2 (“God Part II”). A abordagem é distinta: aqui torna-se mais evidente que a preocupação é trazer o rock (e a canção pop) para o jazz, enquanto com os Songbird não existe esse objectivo, estando lá a marca jazz porque Figueiredo e Hasselberg são, para todos os efeitos, músicos de jazz.

E se na dupla de Lisboa há uma envolvência camerística óbvia, ainda mais indefinindo os parâmetros em causa, o que temos neste álbum é o mais assumido jazz, ainda que com referenciação exterior. E jazz até no sentido em que os temas escolhidos funcionam como novos “standards” para um tratamento jazzístico. Mas atenção, em se tratando de Hugo Raro (piano), Filipe Teixeira (contrabaixo) e António Torres Pinto (bateria), figuras do planeta Porta-Jazz, a música tocada não reproduz passivamente os padrões do trio de piano, aqueles que se institucionalizaram com a tríade Bill Evans-Keith Jarrett-Brad Mehldau. Basta ouvir as abstracções introduzidas por Raro nos momentos de improvisação para o perceber. Na composição de Roger Waters, por exemplo, irrompem os cachos de notas de um Cecil Taylor. Os resultados são bastante bons, mas esta edição fica a perder por ter surgido depois de “Songbird Vol. 1”. Ainda que o factor rock separe os dois CDs, Figueiredo e Hasselberg foram mais longe na manipulação do formato canção.