Carlos Martins

Carlos Martins: “Carlos Martins” (Sons da Lusofonia)

Sons da Lusofonia

Nuno Catarino

Sabemos que a Internet pode ser maravilhosa quando encontramos por acaso um vídeo de Carlos Martins e Bernardo Sassetti gravado no final da década de 1990. Martins com um ar bem jovem, de camisa e calças largas e suspensórios, a tentar emular o sax alto de Charlie Parker numa revisão de “Ornithology”. A acompanhá-lo, atento, um pianista muito jovem, Sassetti. Vemos nesse vídeo que a parceria entre Martins e Sassetti já vinha de longe e foi repentinamente interrompida pela morte do pianista – Martins dedicou-lhe o seu disco anterior, “Absence”, como forma de homenagem.

Agora Martins olha em frente. A simplicidade do título, homónimo, parece assumir o recomeço: deixar o passado lá atrás, voltar a olhar em frente, para o presente e para o futuro. Mas para melhor entendermos a actual música de Carlos Martins será importante olharmos para a sua história (e é muita). O saxofonista foi membro fundador do Sexteto de Jazz de Lisboa (grupo pioneiro na cena nacional) e participou no “Quinteto Maria João” de 1983, o disco de estreia da cantora cuja fama ultrapassou o circuito do jazz. Com uma discografia que ultrapassa as coordenadas restritas do jazz, Martins explorou a relação entre o jazz e outras músicas: em “Outras Índias” aproximou-se de Cabo Verde, “Sempre” celebrou a música do 25 de Abril, “Do Outro Lado” é uma colaboração com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa.

Com “Água”, de 2008, Martins demonstrava já uma maior definição e maturidade, num disco sóbrio e claramente de um jazz mais puro. E se “Absence” era um inevitável olhar para trás, em homenagem a Bernardo Sassetti, este novo disco homónimo representa um virar de página. A acompanhar o saxofonista estão três dos músicos mais presentes da cena jazz nacional, companheiros de longa data do saxofonista: Alexandre Frazão (bateria), Carlos Barretto (contrabaixo) e Mário Delgado (guitarra).

Apesar desse desligar do passado, há um regresso inevitável, com a inclusão no alinhamento de um tema original da autoria de Sassetti, “Chant of Kali” - a única excepção, pois as restantes são todas composições originais de Martins. Estas revelam uma harmonia muito portuguesa, uma sonoridade própria que só encontramos em alguns músicos da mesma geração, mas há pontuais influências externas. Martins partes das suas matrizes geográficas Sul/Alentejo e Lisboa, que funcionam também como matrizes musicais (um dos temas foi inspirado nos sinos de uma igreja lisboeta). E a partir dessas composições a música evolui graciosamente, pelo trabalho conjunto do quarteto.

Se a música do veterano Carlos Martins sempre revelara fluidez, neste disco essa característica é ainda mais evidente. Sente-se que vive do fulgor colectivo, não se tratando de disputar destaques individualmente. Sentimos que o saxofone de Martins está menos exuberante, mais controlado, mas continua a manter a eloquência de sempre. Delgado, Barretto e Frazão revelam a aprimorada competência que lhes conhecemos, completando um quarteto “all-star” que não falha.

  • Carlos Martins

    Carlos Martins (Sons da Lusofonia)

    Carlos Martins

    Carlos Martins (saxofone tenor); Mário Delgado (guitarra eléctrica); Carlos Barretto (contrabaixo); Alexandre Frazão (bateria)