Per Gardin / Rodrigo Pinheiro / Marco Franco / Travassos: “Oblique Mirrors” (ibnmusik)

Rui Eduardo Paes

Há um par de anos, o saxofonista sueco Per Gardin passou por Portugal para um punhado de concertos, surgindo na ocasião como convidado do Red Trio, o grupo em que está inserido o pianista deste “Oblique Mirrors”, Rodrigo Pinheiro. Nos dias em que por cá esteve houve tempo para uma ida aos estúdios Namouche, e assim nasceu a formação que ora se apresenta, com Gardin e Pinheiro complementados pelo baterista Marco Franco e pelo manipulador de electrónica (“circuit bending”, cassetes, objectos amplificados) Travassos. O que desse primeiríssimo (e, ao que sei, nunca repetido) encontro resultou é um aliciante exemplo disso a que se vai chamando de EAI, acrónimo para Electro-Acoustic Improvisation.

O destaque vai, naturalmente, para os instrumentos melódicos, designadamente os saxofones alto e soprano de Gardin, mas fica claro que é, sobretudo, a intervenção do piano que leva a música para terrenos menos alinhados com o que normalmente ouvimos nos terrenos do free jazz e da free music. A forma muito livre de Pinheiro tocar (e livre, inclusive, dos estereótipos da música improvisada) é fundamental nas construções, assim como o é a presença constante, se bem que regra geral discreta, dos dispositivos electrónicos de Travassos, reforçando a “desadequação” da intriga musical desenvolvida na relação com formatos e práticas mais comuns nesta área. Gardin é um músico de primeira água e o que aqui faz soa bastante bem, mas é ele quem surge com um discurso mais tipificado. Já os portugueses estão constantemente fora de quaisquer caixas, com Franco a fazer o que menos se espera de um “drumset” . Música impressionista para o século XXI, prenhe de ideias, é o que este CD contém.