Memoria Uno: “Cook for Butch” (Discordian Records)

Rui Eduardo Paes

O propósito está logo no título: utilizar as técnicas de condução que foram desenvolvidas por Lawrence “Butch” Morris, talvez as que deixaram mais influência nestes meios, apesar de o Sound Painting de Walter Thompson se ter institucionalizado internacionalmente e apesar da fama de John Zorn e do sistema Cobra. Neste disco encontramos alguns dos mais importantes músicos da cena de Barcelona, com relevo para Albert Cirera, Ramon Prats e um exilado do Reino Unido que habitualmente encontramos a tocar com Eddie Prévost, o saxofonista Tom Chant. O “maestro” improvisador é Iván González, se bem que este tenha Cirera como segundo condutor em “Duot” e que dê lugar ao agora lisboeta em “Bingo”. Tanto um como o outro são elementos da irmandade improvisacional catalã, pelo que não se coloca qualquer problema de imposição orientadora, aquela que levou a que, numa célebre “conduction” de “Butch” Morris com a London Improvisers Orchestra, Derek Bailey saísse do palco com visível irritação.

“Cook for Butch” tem mais algumas particularidades. Não é um simples “ensemble” que ouvimos, mas dois sextetos associados, um a tocar no canal esquerdo e o outro no direito, cada uma com secção de sopros, contrabaixo e bateria, com um sétimo elemento (ou o 13º se virmos a Memoria Uno como um todo), o pianista Marco Mezquida, a partilhar ambas as formações e a situar-se ao centro da distribuição estereofónica. As abordagens destas “game pieces” variam. No tema-título explora-se a disseminação sonora, “Song for FAE” é uma explosão de energia com fortes conotações jazzísticas, em versão Sun Ra Arkestra, e “Unevidence” actua por breves pinceladas, destacando determinados timbres do colectivo e assim desconstruindo este. Se a dupla condução de “Duot” nos faria supor um desdobramento dos recursos humanos presentes, é o contrário aquilo que acontece, no sentido da convergência, com Mezquida a colar as partes colocando-se no primeiro plano. O melhor da selecção vem no fim com “Bingo”, mais parecendo uma peça composta e mais parecendo também que estamos perante uma verdadeira “big band”, se bem que com o seu quê de filarmónica de rua. Muito, muito interessante.