Sea Groove: “Maré” (Amar Estúdio)

Rui Eduardo Paes

Música com “groove” e com a frescura do mar. O nome deste duo formado pelo contrabaixista Afonso Castanheira e pelo baterista David Canhoto não engana. O primeiro é uma presença habitual no MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, e mais uma vez este ano lá esteve, participando nos grupos sorteados. Mas se a improvisação sem temas é um “meio” a que Castanheira dá especial importância, o que ele, com a fórmula Sea Groove, nos oferece em “Maré” são temas, e todos eles idiomaticamente alinhados: o fundamento está no jazz, muito assumidamente, e o resto vem por acrescento, em mutantes adopções das formas do funk, do reggae, da soul, da salsa, do hip-hop e daquilo que está por detrás de todas estas correntes musicais da negritude, como diria Leopold Senghor: os blues.

E não, a combinação de dois instrumentos rítmicos não surge a seco, reduzindo tudo ao “beat”. Castanheira e Canhoto utilizam as suas vozes em todas as faixas, entre o rimado em jeito MC, o declamatório e o cantado. Não soubéssemos nós que se trata de uma dupla de portugueses e julgaríamos, inclusive, que este registo tinha proveniência afro-americana. Pelo menos até ao momento em que as letras, de Castanheira tal como as composições, mudam do Inglês para a nossa língua. Ou seja, a música transpira autenticidade. E é divertida e leve, combinando sensibilidade e inteligência de uma forma muito natural. De referir, ainda, que um precioso lugar é deixado aos solos do contrabaixo e estes denunciam um gosto muito particular por Charlie Haden. Que boa surpresa!