Marco Scarassatti / Ernesto Rodrigues / Guilherme Rodrigues / Nuno Torres: “amoa hi” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

É com músicos portugueses que o improvisador e inventor de «esculturas sonoras», como lhes chama, Marco Scarassatti assina o seu trabalho mais próximo da mística indígena do Brasil, e se “amoa hi” não reproduz propriamente a música dos índios do Amazonas, adopta o espírito desta de forma brilhante. Com um forte cariz imagético – poderia funcionar como a banda sonora de um filme etnográfico ou, melhor ainda, de ficção –, os seis temas (todos improvisações) reunidos não só têm como títulos expressões autóctones (exemplos são “ayokora”, “rõrõ konari” ou “remoremo moxi”) como nos induzem imagens da floresta profunda, “entregando-nos” as mesmas com uma aura de mistério e um carácter onírico que nos leva a querer parar tudo o que estamos a fazer para nos deixarmos transportar por este mundo acústico muito próprio.

Fica imediatamente claro que, se os nomes de Ernesto Rodrigues, Guilherme Rodrigues e Nuno Torres figuram ao lado do de Scarassati na bela capa (de Carlos Santos), este é, sobretudo, um disco do artista sediado em Belo Horizonte. As coordenadas derivam da tendência reducionista da improvisação, como esta dando primazia aos timbres e às texturas, mas a permanente agitação distingue a proposta de tudo aquilo que se fez sobre a bandeira do “near silence”. Em termos de filiação estética, terá mais que ver com as abordagens de um Hugh Davies, uma das referências maiores da criação musical com novos instrumentos, na associação deste com músicos que utilizavam instrumentos convencionais com técnicas extensivas e vocabulários alternativos. Mas tem algo mais que se lhe diga, e isso é, aqui, o essencial: uma espécie de neoprimitivismo que procura regressar à origem da organização dos sons para propor outro caminho que não o tomado pela música ocidental. Sublimes momentos vos esperam.