Tak!: “Free-Can-Do” (FlatTown)

Rui Eduardo Paes

O mundo do jazz faz-se por associações, e o nome deste quarteto de Espanha, Tak!, faz-nos de imediato recordar um outro que fez furor no final da década de 1970, os TOK de Takashi Kako, Kent Carter e Oliver Johnson. O título “Free-Can-Do” mais suporta essa conexão, ainda que a música de Roger Martinez, Joan Solana, Manel Fortià e Marc Bordalo, com os préstimos circunstanciais de Vicent Pérez e Gabriel Amargant, seja bastante diferente do que faziam então aqueles três magníficos do jazz de ponta. E logo para começar porque não se trata de free jazz ou pós-free jazz – o relevo da composição desloca-o desse âmbito (e nesse aspecto simbólica é a dedicação de “O.S.C.” a Charles Mingus) e as execuções do grupo disparam em várias direcções, entre alinhamentos com a tradição e muita inventividade (oiça-se, por exemplo, o galvanizante “Tak! Suite?”).

Este disco é mais uma indicação de que algo está a acontecer no jazz espanhol no que respeita à criatividade e àquele tipo de qualidade que tem mais a ver com a afirmação sem medos de caminhos pessoais do que com a superior competência na reprodução de modelos. Ou, dizendo de outro modo, temos aqui um belíssimo disco de uma formação a que importa dar cuidada escuta. A modernidade do jazz passa cada vez mais pelo Sul da Europa e estes Tak! têm uma palavra a dizer quanto a isso. Fortià é o autor da maior parte dos temas incluídos e o mentor deste projecto que tem, precisamente, o seu forte na secção rítmica que o contrabaixista forma com o piano de Solana e a bateria de Bordalo. É impossível ficar indiferente a temas como “Primitivo” e “Ben Hell”, este último o que faz mais justiça a Martinez, o homem do saxofone alto.