Gonçalo Prazeres: “Snapshot” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Pois, a bola de neve continua a rolar pela encosta abaixo, e temos aqui mais um óptimo disco do novo jazz português. Ainda que não constitua uma verdadeira surpresa: o trajecto do saxofonista alto Gonçalo Prazeres vinha apontando para este desenlace e ei-lo que se concretiza com um quinteto de estalo (acompanham-no o sax tenor do catalão Albert Cirera, a guitarra de Nuno Costa, o contrabaixo de João Hasselberg e a bateria de Rui Pereira) e uma fórmula musical que pode ser “moody”, como muito do jazz madrugador em aconchego de bar, e manter-se fiel à identidade e à história do jazz, mas tem ideias e soluções que fogem ao óbvio e à regra. Ou melhor: às regras, pois o que vem em “Snapshot” não cabe dentro dos contornos nem do “mainstream” nem da “vanguarda”, sejam quais forem os significados que por estes dias se dão a tais designações.

Este é o mesmo Gonçalo Prazeres que estudou com Tony Malaby e Steve Lehman, dois exemplos entre os maiores da postura que também adoptou. Se com o álbum “Depois de Alguma Coisa” tinha firmado o seu valor, se com os TRiSoNTe nos dera a confirmação de que está a trilhar um caminho próprio, e se com os Grip 5 de Ricardo A. Freitas nos certificou de que nada disso era acidental, temo-lo agora no lugar que vinha anunciando: o de um dos mais cativantes músicos da cena nacional. Uma delícia suplementar é seguir o que nestes temas do próprio Prazeres faz Albert Cirera, mais conhecido pelo trabalho “fora da caixa” que tem desenvolvido com o projecto Duot ou com Agustí Fernández: encaixa como uma luva com o saxofone do líder. Quanto à secção rítmica, é de salientar o entrosamento conseguido por Costa, Hasselberg e Pereira, bem como o evidente prazer com que saltam para as situações mais “groovy” ou com que descontraem a pulsação para tornar a música mais introspectiva. Em suma, um CD de audição obrigatória.