Nate Wooley / Hugo Antunes / Jorge Queijo / Mário Costa / Chris Corsano: “Purple Patio” (NoBusiness)

Rui Eduardo Paes

A gravação já tem algum tempo (data de Maio de 2012), mas só agora vê a luz do dia numa edição em vinil. Vale mais tarde do que nunca, e o certo é que está aqui algo que apetecia ouvir. Porque são três as baterias, para um só trompete e um só contrabaixo, porque encontramos aqui três músicos portugueses que tem sido especialmente gratificante ouvir, Hugo Antunes, Jorge Queijo e Mário Costa, e finalmente porque os outros dois são nem mais nem menos do que os grandes Nate Wooley e Chris Corsano. Não sei quem se lembrou desta formação, mas tê-la-á imaginado como o que podia acontecer depois de ter havido um senhor chamado Sun Ra.

Quando “Parturition” começa a girar, ficamos com a impressão de que se trata apenas de mais um disco de free jazz, com a particularidade, porém, de o suporte baterístico ser uma muralha viva. É a faixa seguinte do primeiro lado do LP que nos tira do sofá: “Auropa” começa comum solo primitivista de Wooley, mais parecendo que aterramos em território pigmeu. Depois entram as baterias, logo diluindo o que havia de ritualístico com a perspectiva laboratorial de um Dr. Jekyll. Do meio desponta o contrabaixo tocado com arco, das mãos de Antunes saindo uns harmónicos alienígenas tão ou mais bizarros do que a introdução do trompete. De repente, tudo pára. O que vem a seguir, “Animals”, tem um andamento mais pausado e devolve-nos à normalidade – se é que podemos utilizar o termo nesta revisitação da estética “loft” com, mais uma vez, alusões pan-africanistas. Se Wooley trompeta como se o seu instrumento fosse um sintetizador, Antunes mais parece um Ronnie Boykins.  No lado B, “Triangle” é igualmente introspectivo, já com as contribuições percussivas a distinguirem-se entre si, se bem que não seja possível perceber quem faz o quê entre Queijo, Costa e Corsano. Às tantas, dominam as texturas abstractas: já não se trata de jazz, mas de improvisação livre. O disco fecha com “Sueca”, um primeiro lento e mais adiante rápido regresso ao free com o trompetista e o contrabaixista a passarem-se totalmente. No fim, perguntamo-nos o que raio acabou de acontecer.