Ulrich Mitzlaff: “X-Run-4 Prismatique” (Crónica)

Rui Eduardo Paes

Quando na improvisação o “aqui” é tão importante quanto o “agora”, natural será que algumas das práticas desta área valorizem especialmente o factor “site specific”, ou seja, as situações em que o ambiente da actuação musical influencia a própria caracterização desta e os desenvolvimentos efectuados. É esse o caso, precisamente, deste trabalho a solo do violoncelista alemão Ulrich Mitzlaff, há uma quinzena de anos radicado no nosso país e hoje parte especialmente dinâmica da cena nacional.

As gravações foram realizadas num espaço ressoante e de grandes dimensões do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa, situado nas proximidades da auto-estrada que serve o Aeroporto Humberto Delgado. Ouvem-se o trânsito automóvel e aviões a levantarem voo como parte integrante das peças, seguindo a premissa cageana de que todos os sons são utilizáveis numa criação artística. Para além disso, materiais de construção encontrados no local são manipulados (por Paula Freire) de maneira a funcionarem quase como uma orquestra de acompanhamento, muitas vezes sendo difícil distinguir o próprio violoncelo desses objectos de metal não temperados. Fica, assim, a claro o entendimento de que são ténues as fronteiras entre o que é e não é “musical”, sem hierarquias valorativas ou de legitimação estética. Ainda assim, faixas há em que Mitzlaff surge isolado do seu entorno, sendo nessas alturas que mais reconhecemos o quanto deve às linhagens cruzadas da música erudita contemporânea e do free jazz. Muitíssimo interessante, para mais vindo de um antigo baterista que tocava Frank Zappa.