Ana

Paal Nilssen-Love Large Unit: “Ana” (PNL Records)

PNL Records

Gonçalo Falcão

Pense-se na angústia do compositor de uma “big band” de jazz. O grupo é grande, há muita gente a quem é preciso distribuir funções e pautas e neste domínio já foi tudo feito. Felizmente, os nórdicos têm um pragmatismo inato que os faz saltar incólumes sobre muitas destas questões existenciais. Por exemplo: que nome dar à orquestra de Paal Nilssen-Love? “Large Unit”. Porque é uma “unit” e porque é “large”.

Sobre a música: o líder, Nilssen-Love, é baterista e por isso não será de estranhar que a percussão domine a música: dois bateristas e dois percussionistas (28,5% do som é batucado, isto numa análise em mødo nórdicø). E é de facto este um dos elementos distintivos desta “big band” – um inferno rítmico que faz inveja a muita tribo africana. Sobre ele tentam subsistir seis sopros (trompete, trombone, saxofones e tubas), uma guitarra eléctrica e electrónica. Resumidamente, é esta a história de um grande disco: muita bateria, frases simples dos metais e das palhetas, mas com muito gingar de solos e com percussão brasileira a ter um papel fundamental. E se é simples descrever, mais difícil se torna explicar porque é que a música é tão boa.

Entre as intervenções sopradas, que pontuam a música com boas melodias – evocam um regresso ao início de tudo, a um funeral festivo em New Orleans –, estão os solos cruzados de bateria, cuíca, guitarra eléctrica, electrónica (talvez) e são todos excelentes, com tempo e espaço para acontecerem, com clareza e com boas ideias. A intersecção dos solos mostra a boa qualidade dos músicos, que se vêem em situações imprevistas e reagem ao mesmo tempo que agem, por vezes sobre toda a massa sonora. São os metais e os saxes que reinstalam a ordem e relembram o bom “feeling” do grupo.

O uso de dois percussionistas brasileiros dá uma cor inusitada à banda, pois a cuíca bem tocada e o berimbau magistralmente batido (Célio de Carvalho, notável) surgem com a sua personalidade e não para “colorir” a percussão; são instrumentos de direito próprio. Há muitos conceitos musicais no disco. Aparentemente causal, a música é até muito organizada e a banda tem uma solidez notável de quem toca jazz independentemente da meteorologia, aliada a uma descontracção e a uma imprevisibilidade próprias do Sul. Nada é feito em força, tudo é “gwing” (swing com ginga). Mostra que é possível organizar um grupo grande de músicos sem impor demasiadas barreiras, juntando diferentes linguagens, mantendo a descontracção e o interesse; uma desorganização organizada, notável num grupo nórdico.

Faz acreditar que é possível ensinar a beleza de um haiku japonês a um canalizador inglês (a Large Unit vai tocar no Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian, no dia 14 de Agosto, encerrando a 33ª edição deste festival lisboeta).

  • Ana

    Ana (PNL Records)

    Paal Nilssen-Love Large Unit

    Paal Nilssen-Love (bateria, percussão); Thomas Johansson (trompete); Mats Aleklint (trombone); Per Ake Holmlander, Borre Molstad (tubas); Julie Klaer (saxofone alto, flauta); Klaus Holm (saxofones alto e barítono); Ketil Gutvik (guitarra eléctrica); Tommi Keranen (electrónica); Jon Rune Strom, Christian Meaas Svendsen (contrabaixos, baixos eléctricos);  Andreas Wildhagen (bateria, percussão); Paulinho Bicolor, Célio de Carvalho (percussão)