Pulverize the Sound

Pulverize the Sound: “Pulverize the Sound” (Relative Pitch Records)

Relative Pitch Records

Gonçalo Falcão

Pulverize the Sound é um trio de bateria, baixo eléctrico e trompete, sendo que o trompete é de Peter Evans. Começo assim porque o nome não é de somenos importância: Evans é um dos grandes virtuosos do trompete na actualidade e só por isso este disco adquire uma relevância acrescida.

O contexto é o de um “power trio” de rock com bateria agressiva, baixo com distorção e trompete a tentar sobreviver. Os Pulverize the Sound usam a retoma obstinada de uma ideia como forma de fazer música: elementos mínimos e repetição. É o trompete quem modela melodicamente as estruturas rítmicas que passam com a regularidade dos traços das estradas. Por vezes esta cadência regular é substituída por outra, que tem a irregularidade métrica de um jogo de “flippers”. A música é escura, pesada e obsessiva.

E no meio de toda esta repetição estão pequenas irregularidades, normalmente trazidas pelo trompete, que fazem com que a criatividade se vá sustentando sem se tornar previsível e monótona. Um estranho jogo de criação de novidade com um grupo pequeno de elementos, como se, ao infligirem-se esta limitação, livrando-se de todas as possibilidades, quisessem centrar-se melhor na procura de novidade. É quase como se eu decidisse comer arroz para o resto da vida e todos os dias procurasse um sabor diferente.

Peter Evans é um trompetista de detalhe. O seu virtuosismo reside nesta capacidade de trabalhar com o infinitesimal. Neste mundo minimal os detalhes são maximalistas, vão criando as modelações na música, sendo esse o elemento instável. É precisamente por ser capaz de se movimentar no pormenor que Evans consegue ser tão fluido sobre elementos tão pequenos e expectáveis.

Passados os três primeiros temas, ou seja, os primeiros 30 minutos do disco, a dúvida surge: conseguirá esta fórmula sobreviver sem fastio? Não sendo eu um ouvinte que precisa de bater o pé, mas estando capacitado para suportar e apreciar grandes doses de repetição – apesar de Tim Dahl ser um baixista de sons agudos e pouco atractivos –, a música dos Pulverize the Sound surpreende frequentemente pela irregularidade no previsível. Quando está perto de se tornar desinteressante, muda. Com poucos elementos brilhantes é mesmo assim capaz de nos prender e de não se tornar em ruído de fundo. Assim, a resposta é positiva.

Não faço a mínima ideia como é que este esquema se aguenta em concerto ao vivo (os Pulverize the Sound vão tocar no Jazz em Agosto da Fundação Gulbenkian, no dia 6), mas vai certamente requerer dos músicos algum cuidado com as durações. Em disco, a atenção é sempre recompensada e descobrimos uma forma original de usar o trompete no jazz.

  • Pulverize the Sound

    Pulverize the Sound (Relative Pitch Records)

    Pulverize the Sound

    Peter Evans (trompete); Tim Dahl (baixo eléctrico); Mike Pride (bateria)