Paulo Chagas: “Oboe Solos” (Zpoluras)

Rui Eduardo Paes

Apesar de, nos territórios do jazz e da música improvisada, Paulo Chagas ter vincado o seu nome a tocar instrumentos como o saxofone alto e o clarinete baixo, o seu especial apreço pelos instrumentos de palheta mais agudos tem sobressaído nestes últimos anos. Aliás, é com insistência que vem surgindo ao vivo com o clarinete sopranino, variante que em ambiente filarmónico – aquele em que o músico de Peniche nasceu para a música – ganhou o nome de requinta. Foi, no entanto, com o oboé que Chagas fez a sua formação clássica e é a ele que dedica este “Oboe Solos” – não sem que, antes, tivesse lançado outro disco a solo protagonizado pelos seus saxofones, o soprano além do alto. A raridade deste instrumento nos circuitos da improvisação é bem conhecida (nos mesmos domínios poucos além de Kyle Bruckmann e Joseph Celli centram no oboé a sua atenção), e escusado seria dizer que se trata do primeiro álbum do género a ser editado em Portugal.

O CD contém 12 improvisações de duração variável, todas com uma dimensão de pesquisa – fica desde logo patente que se trata de explorações ora processuais, ora de vocabulário, numa tentativa de ir mais fundo e mais longe no aproveitamento ou na ultrapassagem das capacidades físicas e mecânicas desta palheta dupla (como se verifica pelas técnicas extensivas utilizadas e pelos processos de “dobragem” das técnicas convencionais) e na formulação e sedimentação de uma linguagem que não é a original do oboé. Para os aficionados deste tipo de “escavação” instrumental, como o autor das presentes linhas, este disco é uma maravilha, mas aos demais aconselha-se uma audição faseada. Poderão assim tirar mais proveito das ideias colocadas em prática, que são muitas e bem interessantes – incluindo as da mui excêntrica faixa “To Improve Mental Elasticity”.