Ivo Perelman / Matthew Shipp: “Corpo” (Leo Records)

Rui Eduardo Paes

O que pesa mais, o corpo ou a alma? A crer em dois dos cinco mais recentes discos de Ivo Perelman, editados pela Leo Records mais ou menos ao mesmo tempo, é a alma que tem maior gravidade. Para gravar “Soul”, o saxofonista brasileiro residente em Nova Iorque teve de reunir novamente o quarteto que formou com Matthew Shipp, Michael Bisio e Whit Dickey. Já “Corpo” é um duo – mais um entre outros de uma vintena de discos com a participação daquele que é um dos mais conceituados pianistas da actualidade –, e tão intimista, introspectivo e lírico quanto este formato instrumental vai supondo.

Para muitos poderá ser uma surpresa que Perelman se tenha tornado assim tão “soft”, mas até quem ouviu “Callas” e as mudanças que aí vinham ficará com certeza intrigado com este novo título. Acontece que, no período entre a gravação desse duplo CD e a deste (ou destes, porque “Soul” foi registado uma semana depois de “Corpo”), o músico esteve a repensar toda a sua técnica de manejo do sax e a construir um sistema de intervalos muito pessoal, baseado na escala de 12 tons e inspirado no serialismo. A sua música mudou, e quase radicalmente. Continua a ser livre e integralmente improvisada, continua a seguir a herança histórica do saxofone tenor do jazz, mas hoje é bastante menos devedora a John Coltrane e Albert Ayler do que já foi. O curioso é que estes novos parâmetros musicais favorecem o jogo pianístico de Matthew Shipp, que aqui faz maravilhas. “Corpo” vira uma página e agora é só esperar que livro se vai escrever daqui por diante. Pelo que tudo indica, será magnífico….