André Santos Trio: “Vitamina D” (Robalo Music)

Rui Eduardo Paes

Logo ao primeiro tema, “Rainstorm”, ficamos a perceber ao que vamos. A música do André Santos Trio, ou para ser mais exacto, de André Santos, líder e compositor, é de cruzamentos, tangenciais e obliquidades. O solo de contrabaixo tocado com arco por Matt Adomeit que logo aparece é melódico, lembrando um Carlos Bica, mas depois vem algo directamente do planeta Derek Bailey, com a guitarra de Santos a posicionar-se em primeiro plano, e finalmente o tema é anunciado, em confecção rock. Vai-se do tonalismo ao atonalismo e volta-se em poucos segundos. Ficamos logo amarrados, não só pela riqueza das abordagens, mas também porque não há ruas proibidas. É a isto que se chama jazz livre.

O que vem a seguir, “Vitamina D”, é uma balada, mas não soa por estipulação formal, antes por escolha. Adomeit cola, o baterista, Tristan Renfrow, faz um uso excêntrico dos pratos, e a coisa vai crescendo, mais uma vez em direcção ao rock. E se os títulos “Super Mario” e “Buzzlightyear ‘n’ Me” poderiam fazer esperar interpretações em modo “cultura pop”, André Santos mostra o que há de Jim Hall na maneira como faz vibrar as seis cordas e pede aos seus parceiros de grupo uma envolvência swingante. “Francamente” pode ter depois alguma motivação humorística, mas o que a guitarra faz interrompe-nos o riso – que excelente músico temos aqui. Em “Broke Bad”, Santos surge como um Marc Ribot mais seco e menos pedaleiro, talvez porque tenha o jazz como ponto de partida e não de chegada. Se por esta altura já estamos aos saltos, “Espanta Espíritos” é um final com função “chill out”. Não pela suavidade ou pelo desaceleramento, mas por desagregar, abrir espaços, deixar as notas soar, como uns Azul (Bica novamente, e lá está outra vez o contrabaixo) ao ralenti. Pois muito bem.