Nuova Camerata: “Chant” (Improvising Beings)

Rui Eduardo Paes

Quando o nome de um projecto anuncia ao que vai estamos perante um exemplo de formalismo? Não necessariamente, e sobretudo quando não há propriamente uma descrição da música, como é o caso presente. Mesmo que, como também é o caso, haja uma preocupação evidente quanto à forma. E qual é ela? Muito simplesmente, criar uma música de câmara do nosso tempo que seja totalmente improvisada. Este era o invólucro proposto, os conteúdos poderiam ser os mais díspares. Em “Chant”, situam-se esses conteúdos entre a linguagem da música erudita contemporânea (ou não estivessem envolvidos o percussionista Pedro Carneiro, maestro da Orquestra de Câmara Portuguesa, e o contrabaixista Miguel Leiria Pereira, para não referir que todos os três restantes improvisadores – Carlos “Zíngaro”, João Camões e Ulrich Mitzlaff – tiveram formação clássica) e as estratégias que vêm definindo o free jazz e a chamada música improvisada europeia.

A formação deste quinteto seguiu duas premissas: juntar instrumentos que tivessem uma sonoridade de madeira e associar cordofones com percussão. É o que temos: uma marimba mais um violino, uma viola, um violoncelo e um contra baixo em combinações que evitam os típicos aglomerados da fórmula “quarteto de cordas”, e isso para que as cordas de arco não ocupassem um lugar exclusivo. Ou seja, a música que se ouve não tem a marimba a acompanhar as cordas ou as cordas a seguirem a marimba, conseguindo-se não só uma performatividade verdadeiramente colectiva como também um elevado grau de autonomia (e projecção no conjunto) de cada um dos intervenientes – se não há solos convencionais, todos têm a oportunidade de surgir em primeiro plano. Esta formação fez poucos concertos, um deles inserido na edição de 2012 do festival Jazz em Agosto, mas a gravação deste disco no ano passado diz bem da vontade de prosseguir com o projecto. Por muito boas razões, pois o que se ouve no “canto” em sete partes deste CD é magnífico, e tanto nos momentos mais condizentes com aquilo que secularmente define o camerismo como naqueles em que predominam a experimentação e a pesquisa de sons, espantando que nada disto tivesse sido previamente escrito e o que esteja aqui não seja leitura mas criação no momento…