Steve Lehman & Sélébéyone: “Steve Lehman & Sélébéyone” (Pi Recordings)

Rui Eduardo Paes

Depois de “Travail, Transformation and Flow”, e depois de “Mise en Abîme”, Steve Lehman actualiza com este novo título as suas pesquisas do espectralismo harmónico em contexto jazzístico, ainda que de maneira bem diferente. Como então? Explorando até às últimas consequências (e que consequências!) um dos muitos aspectos que já existiam na sua música – a presença, nela, de elementos do rap / hip-hop. Sim, isto quer dizer que este disco, outra bomba que com certeza vai dar muito que falar, é um híbrido espectralista de jazz e hip-hop (“sélébéyone” quer dizer “intersecção”). Lembram-se de “Jazzmatazz Vol. 1”, o álbum que há mais de 20 anos juntou ao “rapper” Guru um grupo formado por Branford Marsalis, Donald Byrd, Lonnie Liston Smith, Roy Ayers e outros e que parecia abrir a porta para uma fusão jazz / hip-hop que nunca chegou realmente a acontecer? Pois aqui está o impulso que faltava.

São dois os MCs que ouvimos, o bem conhecido dos fãs do rap “old school” HPrizm, dos Antipop Consortium, e Gaston Bandimic, uma estrela do hip-hop do Senegal, que aqui intervém na sua língua natal, o Wolof, uma espécie de crioulo entre o Francês e o Árabe. Lehman conheceu-o através de um seu antigo aluno, o saxofonista soprano Maciek Lasserre, associado a este empreendimento não só como instrumentista mas também como co-compositor. Com eles está o teclista Carlos Homs, que usa a electrónica como não ouvíamos desde Flying Lotus e cLOUDDEAD, acrescentando ainda ao septeto uma sonoridade “new music” que nos remete para Ben Neill e Todd Machover. O grupo é completado pelo contrabaixista Drew Gress e pelo baterista Damion Reid, figuras de topo do jazz nova-iorquino que, juntas, constituem uma secção rítmica de fazer inveja a qualquer produtor de hip-hop. E o deste CD não é outro senão Andrew Wright, o homem que está por detrás do sucesso de Kendrick Lamars. As letras falam sobre o conflito no Médio Oriente (ficando muito claro que o judeu Steve Lehman não alinha com as perspectivas sionistas de John Zorn) e sobre o misticismo Sufi, de que são crentes os muçulmanos HPrizm, Bandimic e Lasserre. Ora aqui está uma magnífica edição, candidata a figurar nas primeiras posições dos melhores discos do ano…