Gonçalo Marques Trio & Jacob Sacks: “Canção do Homem Simples” (Robalo Music)

Rui Eduardo Paes

O “design” minimalista da capa de “Canção do Homem Simples” parece indicar que este é um disco de electrónica “lowercase”, mas é de jazz acústico que se trata. A opção gráfica tem, no entanto, uma razão de ser, porque o jazz que aqui vem é especialmente ascético e cheio de espaços, regra geral de pendor melancólico e contemplativo e nunca passando dos tempos lentos e médios-lentos. A abordagem composicional e o tipo de atmosferas remetem-nos imediatamente para Kenny Wheeler, mas não aquilo que Gonçalo Marques faz com o trompete, que tem outras coordenadas. Designadamente, as do hard bop, se bem que desaceleradas e com menos notas. É a partir deste contraste que se vai construindo o interesse do disco, com poucos elementos se chegando a uma tensão que tem tanto de medida e controlada (porque constantemente contrariada, seja por cortes súbitos ou pela intercalação de situações de um inesperado lirismo) quanto de efectiva.

Quando só toca o trio do trompetista com Demian Cabaud no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria, a música surge mais despida e mais crua, como é bom exemplo o tema “Galope”, que se desenvolve por formas justificativas do título não propriamente literais. Nas vezes em que o pianista convidado, Jacob Sacks, participa, cresce a dimensão harmónica e também a complexidade das estruturas, com o conceito que está por detrás dos sons a ganhar, inclusive, um muito bem-vindo carácter surrealizante, bem evidente em “Canção do Demo (Trava-Línguas)” e “Sala 6”. Este é o terceiro álbum em nome próprio de Gonçalo Marques e aquele também que consagra definitivamente o músico na cena jazz nacional, enquanto instrumentista com argumentos sólidos e enquanto compositor com ideias próprias. Tem o caminho aberto e só se pode esperar dele mais e melhor.