David Regueiro: “Bird Lives! The Charlie Parker Songbook” (Free Code Jazz Records)

Nuno Marinho

Alguma vez imaginou como seria se Charlie Parker e Django Reinhardt se tivessem conhecido e tocado juntos? Não procure mais: já aconteceu, por iniciativa do guitarrista galego de “gypsy jazz” David Regueiro. Foi o que fez com o seu Swingtet: as linhas melódicas do bebop americano de 1940 são executadas sobre o ritmo "la pompe" do jazz cigano parisiense de 1930. O desafio era audacioso, considerando que estamos a falar de dois dos músicos de jazz mais importantes de sempre, dois dos que mais drasticamente mudaram a linguagem do jazz no século XX. 

Neste encontro, o que imediatamente salta ao ouvido é uma interpretação muito fiel do trompete de Dizzy Gillespie no discurso de Javi "Gdjazz" Pereiro. Os seus solos são fluentes, impressionantes e agressivos. Tudo que o fraseado bebop e a personalidade de Dizzy representam estão na maneira de tocar de Javi. Tarefa mais difícil recaiu sobre Antonio Otero. É impossível não comparar os solos do saxofonista com o grande mestre Charlie Parker. Mas a verdade é que o som de Antonio é mais próximo do da West Coast, se bem que com pormenores muito próximos do fraseado sincopado de Parker. O repertório é baseado no “songbook” de Bird. E naturalmente, a predominância de todo o álbum dirige-se para os metais. A execução à guitarra de David Regueiro é muito bem conseguida e apoiada por uma sólida seção rítmica, composta por Iago Reigosa na guitarra e Juyma Estévez no contrabaixo. Ouvir um álbum de bebop sem bateria parece, à priori, estranho, mas logo após a primeira escuta percebe-se bem o terreno comum partilhado com o "la pompe" do manouche. Nesta primeira reunião, o bop e os instrumentos de sopro levam a melhor sobre o manouche e  os instrumentos de cordas.