Produto nacional bruto

Acabados de chegar

Produto nacional bruto

NoBusiness Records

texto Rui Eduardo Paes

O jazz e a música improvisada tocados por portugueses têm cada vez mais oportunidade de surgir em disco, e muitos são os casos em que tal acontece por via de editoras de outros países. Aqui se referem os últimos oito a que a jazz.pt teve acesso… A foto acima é de Gabriel Ferrandini, que participa em três deles, pela objectiva de Vera Marmelo.

A quantidade de discos editados com músicos portugueses, a sós ou em parceria com instrumentistas de outros países, e seja por etiquetas nacionais ou estrangeiras, tem aumentado em ritmo acelerado, denotando bem a criatividade e o dinamismo que o jazz e a música improvisada vão tendo em Portugal, bem como a aceitação que estão a ter no resto do mundo. Ouvimos os últimos que nos chegaram à Redacção e deles vos damos conta nas linhas abaixo…

Silêncio, antes e depois

Albert Cirera, um catalão tornado lisboeta 

Em termos formais e até nos musicais, o eixo deste quarteto que junta participantes de Lisboa e Barcelona é Albert Cirera, saxofonista catalão que há um par de anos fixou residência na capital portuguesa. O envolvimento dos “nossos” Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini, 2/3 do Red Trio, deve-se a ele, mas também a inclusão de Agustí Fernández, pianista de origem maiorquina, mas encarado como um emblema da “improv” praticada na Catalunha, com quem há muito Cirera estabeleceu uma proveitosa parceria. Com tal companhia, natural seria que este “Before the Silence” percorresse os meandros da livre-improvisação, mas o certo é que, volta e meia, se impõe a herança idiomática do free jazz. Para todos os efeitos, o mentor desta reunião de talentos ibéricos é um músico do mais explícito jazz que podemos conceber, ele que tem estado presente tanto nos circuitos da vanguarda como nos do “mainstream” deste género musical.

Nesse aspecto, a abordagem consegue ser por vezes bastante convencional, bem mais do que em qualquer registo do Red Trio ou de Fernández. Mas ainda bem, porque o interesse do CD vai sendo construído pelo jogo estabelecido entre o que corresponde a um padrão e o que surge como uma surpresa, em contestação permanente. Sempre numa perspectiva perturbadora, problematizadora, inquieta e irrequieta, tanto assim que ouvir este trabalho obriga a alguns respirares fundos – o segundo tema, “The”, raia mesmo o delírio. Depois de ouvirmos este assalto à serenidade, o silêncio que chega faz-nos valorizar ainda mais a dita.

País ou lamaçal

Américo Rodrigues, da Guarda com mensagem 

Américo Rodrigues é como que o inverso de Jaap Blonk: se este parte da música improvisada vocal para aterrar na poesia sonora, o guardense tem a poesia como fonte e a improvisação como alcance, vindo dessa particularidade o seu especial interesse. E se em tempos era na direcção de um Phil Minton que parecia ir, a introdução de elementos rurais e de outras etnias (com especial relevo para os índios brasileiros) na sua linguagem cantante acabou por caracterizá-lo diferentemente, bem como o apoio na manipulação ou na conexão com a voz de uma grande parafernália de objectos sonoros, a maior parte deles provenientes da natureza – a exemplo de um tal de “trombone de aboboreira”.

A segunda faixa deste disco embalado numa caixa de metal é uma desconcertante mimetização de um grupo instrumental de jazz, e desconcertante não só porque conseguimos identificar os instrumentos aludidos mas também porque Rodrigues parece fazer uma tangente directa da aludida tradição de New Orleans para a vanguarda, ignorando o que separa Jelly Roll Morton de Anthony Braxton. E o que separa é mais o tempo transcorrido entre um e outro do que qualquer motivo terceiro, colocando assim em evidência a dupla polarização desta fórmula poético-musical, entre o experimentalismo e a vernacularidade. De registar, ainda, que este CD tem um cunho político e social muito forte, do qual decorre, aliás, o título, “Porta-Voz”. Logo no primeiro tema repete-se uma interrogação: isto é um país ou um lamaçal? O que nos remete para o episódio do despedimento sumário do autor, da sua posição como director artístico do Teatro Municipal da Guarda, assim que o actual presidente da Câmara daquela cidade tomou posse…

O som de Berendt

Yedo Gibson, um novo alfacinha

O mote para este álbum é dado por um parágrafo do falecido jornalista de música, especializado em jazz, Joachim-Ernst Berendt, que alude às margens do som entre os pulsares e as órbitas dos planetas por um lado, e os electrões dos átomos por outro, com o mundo em que vivemos a situar-se entre esses dois extremos. A música tocada pelos membros dos Baga-Baga, o brasileiro Yedo Gibson e os portugueses Jorge Nuno e Monsieur Trinité (o nome de guerra de Francisco Trindade, um pioneiro da improvisação em Portugal) tem, pois, o alcance micro e macrocósmico teatralizado tanto pelo free jazz afro-transcendentalista (o de John Coltrane, Pharoah Sanders e Sun Ra, por exemplo) como pelo rock psicadélico (Hawkwind, Pink Floyd, Gong) e depressa se percebe a intenção de forjar um free jazz psicadélico. Nesse esforço, “Shabda” consegue aquilo que o trio não pôde concretizar num recente concerto.

A música é exótica, muito graças à contribuição dos objectos percussivos de Trinité, é espacial tanto quanto introspectiva, devido aos voos para fora e para dentro da guitarra de Nuno, mais conhecido pelo seu trabalho no grupo Signs of the Sillhouette, e é também assertiva, beneficiando da virulência dos saxofones de Gibson. Na altura em que este CD foi gravado, Setembro do presente ano, o último vivia em Lisboa há apenas um mês, vindo de uma longa estadia em Amesterdão. Os cinco improvisos reunidos reflectem a magia dos primeiros encontros e conseguem ser entusiasmantes, restando saber se as próximas repescagens da fórmula proposta conseguirão repetir (ou ir até mais além) o brilhantismo dessas primeiras faíscas aqui felizmente documentadas.

Um mundo mineral

Abdul Moimême, mineiro de sons 

Pouco importa saber se houve antecipadamente o propósito de criar uma música “mineral” para a gravação de “Basalto”, ou se tal aconteceu acidentalmente, como de resto é próprio da improvisação. O certo é que, com a junção de Ernesto Rodrigues, para mais recorrendo a um violino barítono, de Abdul Moimême, com as esculturas de chapa com que prepara a guitarra eléctrica, e da percussão ribombante do francês Antez, estavam reunidas as condições para que a música resultante do encontro fosse cavernosa e tivesse ressonâncias de pedra. As novas correntes da música improvisada mais ou menos alinhadas com os conceitos reducionistas não têm por hábito (é até considerado proibitivo por alguns) sugerir estados de espírito ou emoções particulares, mas está aqui uma notável excepção: este é um disco escuro, inquietante, por vezes, inclusive, sinistro. Chega a lembrar as actuações que Lustmord fazia há uns anos em grutas profundas, ainda que descontando o factor do estilo industrial e tendo presente que este CD é predominantemente acústico, enquanto Lustmord é um nome da electrónica “dark”.

Os dois longos temas compilados fazem-nos viajar por um pesadelo sem sobressaltos, suave e inebriante. Mas é uma curiosa viagem: não seguimos em diante, descemos. Para cada vez mais perto do coração da Terra, até perdermos a consciência de onde estamos. A esse processo dificilmente poderemos chamar “iluminação”, tal como os místicos de várias religiões fariam, devido às conotações negras muito próximas, mas também não se trata de escapismo ou de alienação. Fiquemo-nos pela explicação de que é uma forma – especialmente brilhante – de entender por dentro o que é uma rocha ígnea eruptiva e de composição máfica.

Fire music

Luís Vicente, trompete a arder 

É possível tocar hard bop livremente sem se cair na cartilha do free bop? Pelo que ouvimos na primeira metade (“One for Adam”) de “Salão Brazil”, disco assim denominado porque foi gravado na já mítica sala de concertos de Coimbra que tem o mesmo nome, a resposta é positiva. John Dikeman, Luís Vicente, Hugo Antunes e Gabriel Ferrandini podem dançar mais à volta da “caixa” hard bop do que dentro dela, mas nunca se afastam dela. E é possível tocar música totalmente improvisada que não esteja de alguma forma relacionada com o free jazz? Possível será, mas não se encararmos o tema “Hob and Nob” como um exemplo: nele, o suposto não-idioma improvisacional recupera amiúdes vezes os vínculos com o tipo de jazz inventado por Albert Ayler e Ornette Coleman. Ou seja, este quarteto toca hard bop quando se posiciona no free jazz, e free jazz quando aborda aquilo que se vem designando como “música improvisada europeia” (importa referir que Dikeman, apesar de ser americano, vive há décadas na Holanda), o que é curioso e faz com que a música resultante escape sempre aos modelos sem nunca os negar.

Há passagens de grande subtileza por aqui, sobretudo nos inícios – cada improvisação é uma subida ao Evereste –, mas quando estão associados músicos tão afoitos ao hiperdinamismo e ao expressionismo visceral, basta olhar para os seus nomes na capa do LP e prever que as espiras do vinil encerram um incêndio. Aliás, é com toda a propriedade que se aplica a esta música uma designação inventada pela revista Wire (useira e vezeira na criação de rótulos) a partir do título de um álbum de Archie Shepp: fire music. Seja “improv”, free ou pós-bop, o que encontramos aqui arde.

Tem aí uma mosca

Mauel Guimarães, pianista trans-idiomático 

Não terá sido incluída de propósito, mas uma frase que Manuel Guimarães diz no começo deste registo de piano a solo define muito bem a música que se vai propor. Pergunta ele quando a gravação já está a decorrer, e parecendo-lhe ouvir alguma coisa no estúdio: «Tem aí uma mosca.» Pois as peças que se vão sucedendo parecem seguir o voo irregular de um insecto – as tramas tomam várias direcções, mudando de tempos, de materiais e de focos, numa perspectiva assumidamente trans-idiomática. Este pianista, guitarrista e condutor de coros que tem desenvolvido a sua actividade em diversos domínios, do pop-rock à música improvisada (é, aliás, um dos poucos músicos portugueses que fizeram um mestrado sobre o tema da improvisação), passando pela clássica, pelo jazz e pela canção popular portuguesa, integra no seu pianismo elementos de todas essas origens, com relevo para as referências eruditas e jazzísticas.

O curioso neste “Flow Me” é o facto de que em nenhum momento Guimarães se detém nas linguagens-tipo da livre-improvisação, o que diz bem da sua atitude de desalinhamento e de desafio ao estereótipo. Por meio de um lirismo expressivo sem complexos, fica também assente uma especial característica de Guimarães: improvisa com um entendimento composicional, estruturando, criando formas, erguendo edifícios, ainda que estes sejam castelos de areia que ele próprio desfaz logo que concluídos, ou mesmo antes disso, para passar a outras situações tão construídas quanto efémeras. Há muito tempo que se esperava um disco que representasse bem a arte deste intrigante músico. Ei-lo finalmente.

Algodão doce

Miguel Ângelo, sem contraste 

As edições da Carimbo Porta-Jazz são sempre graficamente uma delícia, aproveitando as dimensões das capas dos singles de vinil, mas a esse nível “A Vida de X”, do Miguel Ângelo Quarteto, ganha a palma a todos os demais, pois inclui um caderno com desenhos de Inês Coelho, José Rui Coelho e Maria Mónica. São ilustrações de traço imediatista, muitas vezes confluindo no borrão, extremamente rudes e expressivos, algures entre a arte infantil e o brutalismo estético. A música dentro do CD não podia contrastar mais com o que os nossos olhos vêem. É doce, excessivamente doce, redonda, perfeitinha – falta-lhe uma assimetria, um elemento amargo ou de acidez, um contraste. Falta, às composições do contrabaixista líder, muito mais: desenvolvimento, improvisação, predisposição para saltar para fora, “drive”, garra.

Com tão bons músicos reunidos, designadamente João Guimarães, Joaquim Rodrigues e Marcos Cavaleiro, desejar-se-ia que as suas capacidades fossem exploradas. Não são. No caso de Guimarães, é mesmo confrangedor ouvi-lo obrigado a fazer tão pouco do que sabe. O que temos neste disco é um “mood jazz” para dar ambiente a uma conversa, não um jazz que nos meta dentro dele e nos faça dedicar uma parte do nosso tempo ao acto de apenas ouvir. É música agradável, sem dúvida, mas daquela que só nos consegue arrancar um comentário: «Que bonito.» O jazz não se quer, porém, bonito. Quer-se feio, como muito bem entenderam os desenhadores convidados.

Uma espada de dois gumes

Rodrigo Amado, liberdade com responsabilidade (fot Rui Sila)

A discografia do Motion Trio de Rodrigo Amado é constituída, sobretudo, por álbuns em que surge um quarto elemento convidado. Faltava ouvir em disco apenas o trio, para medir as distâncias relativamente ao único lançamento nesse formato do projecto, aquele que lhe marcou o início em 2009. “Desire & Freedom” vem mostrar- nos o que havia de mais essencial, de mais centrado nas personalidades musicais do mentor saxofonista e dos seus parceiros, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini, nas colaborações que se fizeram com Peter Evans e com Jeb Bishop. Nesse aspecto, é bastante esclarecedor: a energia, o rasgo, a “musa” se quiserem, era deles que vinha na sua maior parte.

O mote da edição é dado por uma frase de Jack Parsons, um engenheiro de foguetões que era também ocultista e membro da Ordo Templi Orientis de Aleister Crowley: «A liberdade é uma espada de dois gumes da qual um é a própria liberdade e o outro é a responsabilidade, sendo que ambos esses gumes são extremamente afiados.» Este juízo tem tradução musical nos três temas do CD: está lá toda a liberdade de quem abraçou os processos da improvisação e também toda a responsabilidade de quem fez questão de (re)conectar essa prática com a linguagem do jazz. Aliás, este disco transpira jazz por todos os lados. Mais exactamente: é um mercuriano, abrasivo, alucinante tratado do pós-bop, incidindo muito objectivamente na marca profunda que aquele deixou no free. Há pouca coisa de melhor no jazz em Portugal do que este Motion Trio, e se isso não era evidente até agora, vai passar a sê-lo…

  • Before the Silence

    Before the Silence (NoBusiness Records)

    Albert Cirera / Hernâni Faustino / Gabriel Ferrandini / Agustí Fernández

    Albert Cirera (saxofones tenor e soprano); Hernâni Faustino (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão); Agustí  Fernández (piano)

  • Porta-Voz

    Porta-Voz (Bosq-Ímanos)

    Américo Rodrigues

    Américo Rodrigues (voz, poesia, brinquedos, trompa de caça, pedras, paus, trombone de aboboreira, megafone, búzio, chocalhos, campainhas, unhas de lama, piaçaba, tubo de PVC) + César Prata (flauta de barro – faixa 9)

  • Shabda

    Shabda (Big Papa Records)

    Baga-Baga

    Jorge Nuno (guitarra eléctrica); Yedo Gibson (saxofones soprano e tenor); Monsieur Trinité (objectos)

  • Basalto

    Basalto (Creative Sources)

    Ernesto Rodrigues / Abdul Moimême / Antez

    Ernesto Rodrigues (viola, violino barítono); Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada); Antez (percussão)

  • Salão Brazil

    Salão Brazil (NoBusiness Records)

    John Dikeman / Luís Vicente / Hugo Antunes / Gabriel Ferrandini

    John Dikeman (saxofone tenor); Luís Vicente (trompete); Hugo Antunes (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão)

  • Flow Me

    Flow Me (Creative Sources)

    Manuel Guimarães

    Manuel Guimarães (piano)

  • A Vida de X

    A Vida de X (Carimbo Porta-Jazz)

    Miguel Ângelo Quarteto

    Miguel Ângelo (contrabaixo); João Guimarães (saxofone alto); Joaquim Rodrigues (piano); Marcos Cavaleiro (bateria)

  • Desire  & Freedom

    Desire & Freedom (Not Two Records)

    Rodrigo Amado Motion Trio

    Rodrigo Amado (saxofone tenor); Miguel Mira (violoncelo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão)