Andrew Cyrille Quartet: “The Declaration of Musical Independence” (ECM)

Rui Eduardo Paes

No fechar do ano, eis um disco que junta o melhor dos vários mundos que compõem o universo do jazz. É logo a contracapa que nos dá vontade de ouvir o CD, ao verificarmos pela ficha técnica que este quarteto junta nomes emblemáticos como o baterista Andrew Cyrille, o guitarrista Bill Frisell, o electronicista (e aqui também pianista) Richard Teitelbaum e o contrabaixista Ben Street, figuras cujos percursos são bem diferentes – tão diferentes quanto as músicas de Cecil Taylor, Paul Motian, Naked City, Jan Garbarek, Musica Elettronica Viva, Carlos “Zíngaro”, John Scofield e Ben Monder, para referir apenas algumas das personalidades e dos grupos com quem, ou dentro dos quais, estas luminárias tocaram. Mas figuras também que não são estranhas entre si: Cyrille e Frisell participaram ambos num projecto de Jakob Bro, Cyrille e Street pertenceram ao trio de Soren Kjaergaard e a colaboração entre o mesmo Cyrille e Teitelbaum data de há várias décadas. A agradável surpresa é vê-los a todos no mesmo empreendimento.

O álbum começa de forma bastante simbólica, com uma versão de “Coltrane Time”. Funciona como se fosse esse baluarte da história do jazz chamado John Coltrane o factor de união dos quatro músicos, mas logo avisando, pelas liberdades tomadas em relação ao original, que o propósito não é reproduzir modelos. E de facto não é, com “The Declaration of Musical Independence” a resultar menos “experimental” (seja o que for que este termo significa realmente) do que poderíamos imaginar – pelo menos tendo em conta o papel que Andrew Cyrille teve no free jazz e o pioneirismo de Richard Teitelbaum na livre-improvisação. A música que ouvimos não se situa, de todo, nesses parâmetros, e o relevo que nela tem a guitarra de Frisell, autor aliás da maior parte das composições, aproxima-a do que este deixou gravado na ECM. De resto, o tema “Manfred” (uma improvisação colectiva) traz consigo um simbolismo extra: a homenagem ao mentor da editora alemã, Manfred Eicher, torna explícita a adesão da música aos princípios da etiqueta, o que não entra em conflito com a independência declarada no título. O resultado é uma delícia, em linha com o que se espera de um disco da ECM, mas diferente, único até.