Jimmy Giuffre 3: “Bremen & Stuttgart 1961” (Emanem)

Rui Eduardo Paes

É muito frequente dizer-se e escrever-se que a música dos nossos dias vive ainda no legado dos paradigmas das décadas de 1960 e 70. No que ao jazz respeita está a cometer-se a injustiça de esquecer os saltos “epistemológicos” ocorridos nos anos 1950, decisivos para o que veio a ocorrer logo de seguida, e designadamente aqueles dados por figuras como Lennie Tristano, George Russell, Herbie Nichols, Charles Mingus, Ornette Coleman, Cecil Taylor e, não menos importante, Jimmy Giuffre.  O trabalho que este desenvolveu em trio com o pianista Paul Bley e o contrabaixista Steve Swallow desenhou o arco evolutivo que foi do cool da West Coast norte-americana à improvisação dita vanguardista, com a particularidade de ter contrastado a típica intensidade do hard bop e do free com uma abordagem algo “folky” e pastoral, toda ela feita de detalhes, subtilezas e nuances. “Bremen & Stuttgart 1961” recorda esse trabalho do Jimmy Giuffre 3 já na entrada dos Sixties, juntando gravações previamente editadas pela Verve e pela hat Art de concertos realizados nas duas cidades alemãs referidas pelo título e outros registos que se mantiveram inéditos e que têm a particularidade de nos dar a ouvir apenas Bley e Swallow, muito antes de este último se ter convertido ao baixo eléctrico.

Esta recuperação em formato de duplo álbum tem um atractivo extra para além do seu valor histórico, pois dá-nos a percepção de como a música do mestre clarinetista (não ouvimos aqui o seu saxofone tenor, nem as flautas a que também se dedicou) resistiu bem ao tempo, apesar de algumas das “new dimensions of feeling” advogadas por Giuffre se terem vulgarizado nos circuitos do jazz criativo, e não só. Na época, as ideias aqui traduzidas em som eram novidade e iam em contramão com o que se fazia na área do jazz, inclusive o que anunciava a chegada da “new thing”, pelo facto de entender a liberdade das formas de um modo particularmente suave e denotando uma enorme influência da música erudita. Não surpreende, em consequência, que pouco depois da única digressão do grupo na Europa o mesmo se tenha desfeito e Giuffre tenha ficado 10 anos sem tocar em público e sem gravar: as audiências nos Estados Unidos não estavam interessadas, pelo que os “gigs” com pagamentos à porta – os únicos possíveis – traduziam-se em míseras compensações, e as editoras tinham fechado as portas a tudo o que era inovador ou diferente do que “estava a dar”. Hoje, esse cenário parece-nos bastante cruel, tão belo é o que aqui está documentado. Ainda que o “realismo capitalista” de que fala Martin Davidson nas suas “liner notes” continue, na actualidade, a travar os avanços artísticos. O que teria acontecido no jazz se este projecto tivesse prosseguido o seu caminho? Nunca o saberemos…