Grupo Um: “Uma Lenda ao Vivo” (Sesc São Paulo)

Rui Eduardo Paes

Num país, o Brasil, em que o jazz foi quase sempre medíocre, obrigando-se a reproduzir passivamente o receituário da bossa nova, o Grupo Um foi uma pedrada no charco há 30 anos, marcando a diferença e criando a lenda referida no título deste disco. O projecto nascido em 1976 por iniciativa dos irmãos Lelo Nazário (teclados, electrónica) e Zé Eduardo Nazário (bateria, percussão), na altura em que ambos tocavam com Hermeto Pascoal, revelou logo no primeiro álbum, “Marcha sobre a Cidade” (1977), ambições que ultrapassavam mesmo as professadas por Hermeto. O que aqui vem é o registo do reencontro em 2015, no festival Jazz na Fábrica, de São Paulo, deste quinteto completado pelo saxofonista e flautista Mauro Senise, pelo contrabaixista Frank Herzberg e pelo clarinetista baixo e teclista Felix Wagner.

A música que ouvimos é uma repescagem dos temas do LP debutante, numa fusão influenciada pelo free jazz e pela electroacústica erudita, mas se reencontramos o espírito do Grupo Um, estando aí o lado positivo deste CD e a explicação para a carga emocional que o mesmo transmite, essas fórmulas não são actualizadas ou continuadas, mas apenas repostas. Este tipo de combinações sofreu uma evolução ao longo das últimas décadas que é aqui completamente ignorada, e o inevitável acontece: tudo nos soa datado e velho. Muitas das interpretações roçam a excelência, mas por detrás está um passamento estético que chega a incomodar. O concerto foi meramente comemorativo e é-o também este disco. Nada veio acrescentar, quando o que se desejava era que a banda, fiel à imagem que deixou, avançasse no terreno um pouco mais. Se os Nazário não o fizeram no prosseguimento das suas carreiras musicais, esta retoma do seu investimento inovador de juventude não cumpre igualmente com tal expectativa. É pena, pois a memória do Grupo Um bem o exigia e merecia.