Paulo Chagas / Samuel Hallkvist / Stephan Sieben: “Days Are Not Days” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Sabiam que há um CD gravado em Portugal e anfitriado por um português que foi misturado / produzido por David Torn? Muito provavelmente não, e muitos serão os apaixonados pelos guitarrismos exploratórios que nas suas contas sobre o que aconteceu discograficamente em 2016 continuarão – apesar da presente chamada de atenção – a não se aperceber de que “Days Are Not Days” existe. Aliás, a etiqueta que o lançou, igualmente cá do burgo (Creative Sources), é mais ouvida lá fora do que dentro de portas, como vai sendo lamentável costume. E por que é que Torn está envolvido neste lançamento? Porque os músicos não portugueses que tocam nele são guitarristas que chamaram a atenção do também dedilhador de cordas que costuma editar pela ECM, designadamente Samuel Hallkvist e Stephan Sieben, dois nórdicos que se têm feito notar nos domínios do jazz eléctrico pós-fusão, do pós-rock e do noise. O tuga, esse, é Paulo Chagas, figura da “improv” que tem historial igualmente no jazz, no rock e no folk progressivos, aqui surgindo apenas com dois dos seus muitos instrumentos de sopro, o saxofone alto e a flauta.

A música é impossível de categorizar, pois é como que um edifício construído a partir dos escombros de vários outros com conceitos arquitectónicos distintos. O rock está muito presente, algo que não surpreende pelo facto de haver duas guitarras eléctricas em interacção permanente, mas percebendo-se que essa filiação é não só assumida como intencionada. São, no entanto, muitas mais as componentes, de uma visão milenarista da música de câmara a um entendimento experimental da electrónica, passando por iguais medidas de ambientalismo e bruitismo, aqui e ali com picantes temperos de free jazz. O resultado é altamente entusiasmante, tornando este título num dos mais importantes do ano, mesmo que não venha (querem apostar?) a aparecer nas listas de melhores em preparação.