Blue Beast: “Devil May Care” (Dewclaw Ditties)

Rui Eduardo Paes

Mais um encontro improvável que resulta em grande. De um lado está o guitarrista e electronicista Miguel Barella, ocasional parceiro de Rob Mazurek, figura de topo da música livremente improvisada que se pratica em S. Paulo e também um histórico do rock alternativo e do experimentalismo brasileiros. Do outro encontramos a vocalista (e também manipuladora de dispositivos electrónicos) americana, ainda que de origem holandesa, Truus De Groot, fundadora de um grupo que fez furor no “underground” nova-iorquino da década de 1980, Plus Instruments, pelo qual passaram músicos como Thurston Moore, dos Sonic Youth, e Jim Sclavunos, que esteve nos Cramps e hoje encontramos ao lado de Nick Cave nos Bad Seeds e nos Grinderman.

A música foi composta, cantada, tocada e gravada entre S. Paulo e Escondido, na Califórnia, e a masterização realizou-a o braço direito de uma personalidade do punk, Tom Verlaine, designadamente o baixista francês Patrick Derivaz. O que tem isto a ver com jazz?, podem vocês perguntar. Tem muito, não só porque Barella tem andado pelas margens mais exploratórias e criativas desse circuito como pelo facto de a voz de De Groot ter mais blues, mais soul e mais jazz nela do que a maior parte das cantoras de jazz que por aí andam, e isso apesar das óbvias referências numa Lene Lovich ou numa Siouxsie Sioux. O álbum “Devil May Care” é uma constante surpresa e cada tema que avança convence-nos mais de que está aqui uma preciosidade, dêem-lhe o rótulo que lhe derem.