Kabas: “Abel” (el NEGOCITO)

Rui Eduardo Paes

Pouco vamos sabendo da cena jazzística da Bélgica, mas a vinda recente do quarteto Kabas, de Ghent, para uma pequena digressão por Portugal virou alguns ouvidos para o que por ali se faz. Inclusive porque o flautista Jan Daelman, o pianista Thijs Troch, o contrabaixista Nils Vermeulen e o baterista Elias Devoldere estão envolvidos em muitos outros projectos com sede no seu país, pelo que um disco como este “Abel” só pode ser representativo. Em termos estéticos o grupo navega pelas águas situadas entre a livre-improvisação e o jazz tal como vem sendo identificado, num caso como no outro denotando uma grande influência da música erudita do século XX. Muito particularmente a escrita de Erik Satie, invocada sobretudo por Troch e tal como ficou patente no concerto a que assistimos na SMUP há apenas uns dias. O “entrismo” Kabas não o conduz à expectável hibridização: é à vez que improvisa sem cifras e que toca jazz, saltando de uma base para a outra sem propriamente as (con)fundir. O interessante é ser tão bom numa abordagem como na outra. Aliás, é nos momentos em que um “groove” jazz surge em contexto de abstracção que este disco mais entusiasma.

Encontramos neste CD, tal como ao vivo (a quatro ou com as participações de músicos convidados, no caso da actuação na Parede o percussionista Carlos Godinho e o trompetista Luís Vicente) uma forma muito especial de terminar cada peça / improviso. Se uma boa parte dos colectivos de improvisação vai desenvolvendo um tema a pensar de imediato no modo como o concluirá, muitas vezes tornando o fim, não propriamente a viagem, num destino, no caso desta formação belga os temas são simplesmente interrompidos, e isso quando menos se espera. O que significa que qualquer situação que se instale pode ou não trazer um fim, acontecendo este sem qualquer violência ou sobressalto. O silêncio que se segue tem o mesmo peso que o som que poderia surgir. Não há intenção finalizadora, mas uma simultânea decisão de momento nesse sentido. Também o fim é improvisado, o que não parece ser o caso na maior parte das práticas nestas áreas. Ora, isso é muito interessante e digno de nota, tornando cada faixa numa espécie de apontamento ou num “statement”, dependendo das variações entre a leveza das atmosferas criadas e a afirmação de uma determinada passagem.