Wadada Leo Smith: “America’s National Parks” (Cuneiform)

Rui Eduardo Paes

Talvez o trompetista de jazz de maior relevo desde a morte de Miles Davis, Wadada Leo Smith continua com este “America’s National Parks” o seu périplo pelos temas fundacionais da América e pela exaltação da história dos negros americanos, dando-lhes um tratamento épico que não é comum encontrar neste género de música desde pelo menos Duke Ellington. No caso, presta homenagem aos parques naturais dos Estados Unidos, não numa perspectiva institucional e comemorativa, mas carregada de toda a sua habitual espiritualidade. Argumenta ele, a propósito, que «o fenómeno natural da criação, tal como o ser humano, as estrelas, a luz e a água, são apenas uma coisa, difusão de energia». O seu foco para esta nova obra vai, de facto, para «as dimensões espiritual e psicológica da ideia de circunscrever reservas naturais como propriedade comum dos cidadãos americanos», que não para as políticas.

Para o efeito conta com o Golden Quintet, formado com um velho companheiro de lides, o pianista Anthony Davis, e com os seus dois outros parceiros do Golden Quartet, John Lindberg (contrabaixo) e Pheeroan akLaff (bateria), a que adicionou o violoncelista Ashley Walters para uma muito curiosa interacção com o trompete. São 90 minutos de uma suite em seis partes, dividida em dois CDs, e é sem surpresa que verificamos que a “ideia” de parque nacional de Wadada é bastante lata, nela incluindo New Orleans como parque cultural e até a musicóloga afro-americana Eileen Jackson Southern, que apresenta como “parque nacional literário”. Jazz de câmara de qualidade superlativa, entre o meticulosamente composto e o livremente improvisado, grande na confecção e grande nos resultados, é o que encontramos aqui. Imperdível.