Marco Scarassatti: “Casa Acústica – Fragments from an Improvisation Diary” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Um disco de música improvisada pode ser, em si mesmo, um contrassenso, na medida em que um registo cristaliza, fixa, torna imutável, aquilo que é improvisado. Não fosse, no entanto, o gravador e esta prática musical ficaria totalmente entregue à sua condição original: a efemeridade do momento. O brasileiro Marco Scarassatti enfrentou este dilema de frente e, entre 2014 e 2016, propôs-se realizar um diário de improvisações. “Casa Acústica” é, pois, uma colecção (seleccionada por Henrique Iwao entre 100 horas de gravações) de “snapshots” da sua prática quotidiana como improvisador, utilizando instrumentos de sua própria invenção, inspirados ou não nos do seu mestre, Walter Smetak, bem como a tradicional viola de cocho (um cordofone da região do Mato Grosso construído artesanalmente com madeiras macias como as da mangueira ou do imbiruçu e dispondo de cordas de tripa de macaco ou ouriço), o saxofone barítono e objectos vários.

Ao longo do disco ouvimos também alguns ambientes auditivos, incluídos para reforço realístico das peças e não propriamente na qualidade de “field recordings”. O procedimento denota mais a influência de Cage (este defendia que todos os sons são passíveis de ser música) do que de Duchamp (a fórmula “sons encontrados” deriva dos “readymades” propostos pelo artista francês) e diferencia o músico sediado em Belo Horizonte do mais seminal dos escultores sonoros da área da livre-improvisação, Hugh Davies. Em algumas das faixas ouvimos igualmente visitantes da “casa acústica” de Scarassatti como Mateus Dantas e o violinista Guilherme António. O que resulta é um trabalho textural e tímbrico que lida directamente com o Som, o que quer dizer que parte sempre deste e não de uma ideia musical já formada. Neste contexto, não é possível referir as metodologias do autor como “extensivas”, pois não se trata de prolongar quaisquer convenções técnicas e lexicais estabelecidas – que é o que, regra geral, se vai fazendo nos domínios ditos experimentais. Aqui, novos instrumentos, ou instrumentos convencionais tocados como se não tivessem desempenhos historicamente definidos (a faixa dedicada a Ornette Coleman, no dia da sua morte, está muito longe de soar ao saxofonista), significam a utilização de novas abordagens. Marco Scarassatti continua a desbravar caminhos em terrenos onde julgávamos que tal já não seria possível.